Um pouco inebriada pela pré-estreia do filme O Tempo e o Vento, na quinta-feira (19) à noite, em Bagé (palmas para o município da Região da Campanha do Rio Grande do Sul que ainda mantém um cinema no centro), andei cantarolando, no final de semana, uma música sobre a saga das famílias Terra-Cambará. De autoria de Luiz Coronel e Marco Aurélio Vasconcellos, a canção que leva o mesmo nome da trilogia de Erico Veríssimo, embalava as minhas noites de sábado, lá pelos idos de 1980, numa casa encravada no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Num galpão erguido no pátio, uma turma de guris, também adolescentes, formava um conjunto/banda, com algumas tietes, como eu, e interpretava composições próprias e de diferentes autores gaúchos.
Na voz afinada dos guris do Pakuo’s, como o local fora batizado, conheci milongas tristes e campeiras, parceiras de um violão, músicas hilárias deles como A Romilda, algumas letras lindas de Eduardo San Martin, e várias vezes, escutei a narrativa dos Terra-Cambará, na melodia de Luiz Coronel e Marco Aurélio Vasconcellos. Bons tempos lembraram alguns ao comentar uma postagem minha sobre o assunto no Facebook. E eu reforço. Grandes lembranças. De outros tempos. De outros ventos que não foram suficientes para varrer as memórias e nem enterrar o passado.
Adolescência, cinemas instalados fora de shoppings, noites de intensas cantorias e bate-papos. Saudades. Do tempo que sobrava e hoje limita a frequência dos encontros com os amigos velhos e novos. Do tempo que se oferecia espaçoso para as conversas sem fim, os passeios à beira do Guaíba nas tardes de domingo, as divagações. Do tempo que fomentava os sonhos que insistiam em alimentar novas utopias. Do vento que soprava nas noites do inverno, quase sempre fermentados pelos vinhos de garrafão, e estimulava a voz solta na entonação das músicas. Do vento que assobiava e favorecia os aconchegos, tanto os familiares como os amorosos.
Saudades de ventos de mudanças soprando. E como escreveu Erico Veríssimo, quando eles sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento. Ao rememorar a saga dos Terra-Cambará, agora no filme de Jayme Monjardim, desenvolvi uma saudade imensa e recorrente de pessoas da minha família que construíam relações, incentivavam os encontros, aceleravam a oferta de carinhos. Pessoas que esbanjavam, como os Terra-Cambará, a garra e a coragem de viver. Como a minha madrinha Irene, que nos deixou cedo, ainda nos anos 80. Como o mano Luis Fernando (Dedé, o Dédi ou o Luli), que se foi em maio de 2003. Como a mamis Mirthô, que partiu em julho de 2011.
Como também escreveu Erico, o tempo faz a gente esquecer, há pessoas que esquecem depressa. Outras apenas fingem que não se lembram mais. Enquadro-me no último caso.
Sigo fingindo que esqueci depressa. Finjo que nem me lembro mais. Ou quando lembro, finjo que nem dói tanto. Pura enganação. É só ver algum filme, uma cena de novela, pode ser da piores, ler um livro, pensar num assunto que seja associado com família, que as minhas saudades se expõem. E aí, já nem tento porque não consigo fingir que não sinto. Simples assim.
Nestes momentos, tenho saudades do vento que levava embora estes sentimentos mais melancólicos e não deixava a ausência destes familiares se perpetuar. Nestes momentos, tenho saudades do vento que secava rapidamente as lágrimas e assim impedia que os olhos ficassem vermelhos do choro. Nestes momentos, tenho saudades do vento que uivava e abafava o barulho dos meus soluços de emoção. Saudades do tempo em que o vento não me trazia tantas saudades. Do tempo. Do vento. De não sentir saudades.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial