Hoje gostaria de escrever sobre a bela paisagem do Guaíba que emoldura a janela do 13º andar do local onde trabalho e retornei, na segunda-feira, após uma licença em função do luto pelo falecimento de minha mãe Mirthô Peçanha Martins. Talvez usar o espaço aqui do portal para agradecer tanto apoio recebido e tanto carinho ofertado nestes dias em que vivi o caos com o início da saudade materna. Ou comentar sobre alguma manchete de jornal equivocada, e são várias, a troca de ministros, resultado de futebol, saída do meu ídolo Renato Portaluppi e outras banalidades destes primeiros dias de julho, que se mostram tão frios e ásperos.
Mas, como sempre fui muito honesta com meus leitores nautas, preciso confessar que não consigo escrever, agradecer ou comentar sobre qualquer assunto. É que desde o dia 4 de julho, quando minha mãe se despediu de nós, pelo menos aqui neste plano, os meus dias e noites têm sido muito improdutivos. Só consigo semear saudades e saudades e saudades. Não é possível pensar. Nem mesmo cantar feito louca alucinada e desafinada como sempre fiz pelos quatro cantos do meu minúsculo apartamento. Até mesmo os poemas que sempre foram meu lazer predileto eu não consigo escrever. Sobrevivo, mas de maneira lenta e improdutiva.
Carrego uma dor imensurável que se arrasta e não me abandona em nenhum momento e quem já passou por esta situação de falecimento de mãe sabe a que estou me referindo. Durmo sempre com a sensação de que acordarei e tudo não terá passado de um bobo pesadelo e que se eu precisar minha mãe virá me socorrer e lembrar que “quando eu casar, isto passa”. Acordo com a ideia de que dormirei mais tarde e terei, de novo, o meu esteio familiar ao meu lado. Respiro alto e ofegante para fazer barulho e tentar retirar a minha mãe deste sono profundo em que ela entrou, como se me fosse dada a opção de fazer tudo voltar ao que era.
A realidade é muito dura e irreversível. Nada ameniza ou diminui esta sensação insuportável de dor. Porque desde então, tudo dói demais na minha vida. É dolorido olhar os pertences de minha mãe e ter que leiloá-los porque precisamos desocupar a casa. É por demais dolorido ver as fotos antigas, ainda em preto e branco, em que ela aparecia feliz e com muita saúde. É dolorido perceber que o neto recém nascido e os bisnetos não chegaram a conviver o tempo suficiente para conhecer esta avó e bisavó que sempre se doava pelos familiares próximos. É uma dor pungente saber que ela estará ausente fisicamente nos próximos aniversários, natais, páscoas e eventos comemorativos.
Nunca mais esperar seu telefonema para saber como havia sido o meu dia. Nunca mais escutar sua voz dizendo para que eu tivesse mais paciência com a sua neta Gabriela. Nunca mais responder para ela que já comprara a passagem de ônibus para passar o final de semana em Butiá. Nunca mais saber que ela contará pela décima vez a mesma estória do edifício na Rua Fernando Machado. E nunca mais saber que ela confeccionará apetitosas trufas para mimar os netos mais velhos. Nunca mais ter seus conselhos, seu afeto, seus carinhos e preocupações.
Por isso, dói demais tudo. Como no filme “Banquete do Amor”, que assisti, casualmente, mais uma vez, antes do falecimento da mãe, em que um dos personagens, desiludido ao ser deixado pela segunda vez por mulheres diferentes, decide cortar os dedos de uma das mãos. Ao chegar ao hospital, conduzido pelo vizinho, vivido pelo ator Morgan Freeman, o moço responde quando a médica pergunta o motivo do mutilamento: “queria que meu corpo sentisse dor semelhante a que sente o meu coração”.

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