A humanidade nasceu pro crime.
Não, não julgo sumariamente a espécie. O relatório oficial é da Bíblia. Lá estão, arrolados em deliciosas narrativas, todos os cídios de que somos capazes: no singular (homicídio) e plural (genocídio), contra estranhos (xenocídio) e familiares (parricídio/matricídio/filicídio/fraticídio, e deve haver também avocídios/tiocídios/ sobrinhocídios). Sem falar num dos mais terríveis atos do gênero, em que o assassino jamais é apanhado – o suicídio.
No registro das atrocidades, o descritivo bíblico (sempre inspirador!) se manteve insuperável por milênios. Até surgir outro livrão, catálogo especializado nas nossas aptidões para a crueldade. É o Código Penal, best-seller nos tribunais, escritórios advocatícios e estantes correlatas.
Mas como a humanidade evolui veloz nas barbaridades, também o Código Penal acaba superado de tempos em tempos. A tecnologia cria novos campos e modalidades para a estupidez se realizar. E o próprio compêndio imita a Bíblia na inspiração: pra quê fazer os mesmos crimes se a imaginação humana é infinita?
Com a profusão de inéditas idéias mortais, o Código Penal se tornou incapaz de abarcar e resolver a variedade criminal (hoje em dia, gravata, colarinho branco e pastas executivas também são armas), que se acumulou nas entrelinhas do volume. Enfim, tudo isso deixa o judiciário de mãos e pés atados, como aliás perecem tantas vítimas encontradas nos matagais.
Essa incontrolável expansão da violência seminal (tai o estupro que permite o trocadilho) criou um problemaço administrativo: onde botar tantos violentos?
Como sai mais barato reformar o Código Penal que presídios, o livrão agora se encaminha para uma versão soft, cool, lá sei eu. Crimes hediondos e horrendos ainda não estão fora mas outros, um tantinho menos brutais, já livram o criminoso de qualquer pena. O esquartejamento, na sua assustadora modalidade contemporânea, ah, esse ainda não poderá ser abrandado tão cedo.
Daí a liberdade condicional desfrutada por toda a população, dos criminosos aos inocentes, dos culpados às vítimas. Não adianta se queixar em parte alguma: as delegacias estão ocupadas demais – se defendendo dos ataques de bandidos.
Pô, Fraga, onde está a graça desse texto? Provavelmente no IML.
Se Ética fosse vendida a quilo,
roubariam no peso.

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