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Donde nóis passemo os dias feliz da nossa vida

Quando se carrega um passado em comum, mesmo que não se tenha muita convergência no presente, qualquer pequeno encontro torna-se harmonioso e proveitoso. Com …

Quando se carrega um passado em comum, mesmo que não se tenha muita convergência no presente, qualquer pequeno encontro torna-se harmonioso e proveitoso. Com número elevado de participantes ou só a diretoria. Numa noite quente de Porto Alegre no início deste janeiro que não acaba mais, uma amiga da turma da faculdade da Famecos, batizada não sei por quem de “Saudosa Maloca”, resolveu comemorar o seu cinquentenário. No boteco da Cidade Baixa, onde tudo fervia, inclusive o chope, reuniram-se conhecidos, colegas e amigos de todos os cantos da aniversariante. No começo da madrugada, permanecia a turma oriunda da Saudosa, um grupo de cinco, que não cansava de encontrar assunto.

Se alguém pensa que as cinco pessoas resistentes no bar comungavam de afinidades nos dias de hoje, está enganado. Com exceção da paixão confessa pelo Imortal Tricolor, imagino que da maioria ali reunida, os pontos de confronto são imensos, incluindo rumos da profissão, problemas familiares, opções políticas e tantas outras. Mas foi só alguém lembrar aquela festa do final dos anos 70 e início de 80, realizada no apartamento da João Pessoa, que o papo rendeu.

Depois, falamos no acidente envolvendo o fuca de um amigo no retorno de um churrasco na casa de fulana. E da sicrana que teve nenê. E do Beltrano que trocou a faculdade e hoje está bonitão. Do amigo que vive no Canadá. Do povo que se reúne no Rio de Janeiro. Dos torcedores que prometem se encontrar, este ano, no mesmo bar, para curtir os jogos do Grêmio pela Libertadores. Da amiga da prima do colega.

Tanto assunto assim emendado no outro, às vezes sem intervalo entre eles, não nasce do nada. É preciso ter dividido algo em comum. É necessário ter, no passado, pensado em soluções fantásticas para mudar o mundo. É fácil quando se dividia bem mais do que conceitos de comunicação mal e mal rabiscados nos cadernos. Brota das lembranças de “dim donde nóis passemo os dias feliz da nossa vida”, música do Adoniram Barbosa que serviu para nomear a turma.

Desde que ocorreu o primeiro encontro dos integrantes da Saudosa, lá por setembro ou outubro de 2006, já teve alguma discussão por email, um tom mais elevado em algum acerto de local, uma contrariedade de rumo. Afinal, no presente a mente é diferente, o corpo sofreu mudanças, mas o passado, embora seja uma roupa que não nos serve mais, é forte o suficiente para perpetuar todas as nossas utopias.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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