Dia 19, Paulo César de Campos Velho (apud programa de inauguração do Teatro de Equipe, 1960, Porto Alegre), completou 70 anos e houve comemoração no Rio. Mandei-lhe um e-mail:
“Peréio, conforme registro no coração:
Quando começou a nossa jornada comum, faltavam poucos meses para fazeres 18 anos e então, no Romeu e Julieta, eras um tímido Teobaldo.
Uma das fotos da minha memória ‘bati’, escondido e emocionado, da escada de entrada na plateia do Equipe, tu – de terno e gravata – fazendo o discurso de inauguração do nosso teatrinho.
Nossa jornada comum acabou quando éramos, apenas, donos de botequim no porão do teatro.
De tudo fica um pouco, cantou Drummond.
De ti, dos Campos Velho, ficou e ficam teu pai, tua mãe, Rosa, teus irmãos e uma Portinho que não existe mais.
Teu conterrâneo, Quintana, disse que a amizade é um amor que não acabou.
É isso aí.
Dia 19, esteja onde estiveres, estarei onde sempre estive.
Junto.
Beijos.
Mario
PS. Com duas cirurgias pela frente, com 79 anos, peço habeas corpus na tua festa.
Por ser por idade, peço deferimento.
M.”
Serviço:
A todos os que foram à festa e a todos os que não foram, nesta terça, dia 26 de outubro, às 21h30min, no Canal Brasil, o especial Sem Frescura Peréio 70 anos. Dessa vez, o entrevistado será o Peréio. Reprises: quarta-feira às 16h e domingo às 13h30min
“… e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.”
(Resíduo, Carlos Drummond da Andrade).
Passei anos da minha vida escrevendo em nome do Walter Clark, então diretor-geral da Rede Globo, outros tantos para o presidente da Fundação Roberto Marinho, alguns “frilas” e outros poucos – até carta amorosa – para alguns amigos.
Hoje, acho justo servir-me dos amigos aqui presentes para que escrevam por mim. Obrigado.
Começarei pelos colegas jornalistas e, no caso, também escritores. Seguem e-mails sobre a ida de Lara de Lemos para o mausoléu dos poetas brasileiros.
A porto-alegrense Célia Ribeiro foi a primeira jornalista a me entrevistar – Revista do Globo, 1957 – quando o Antonio Abujamra me levou para dirigir espetáculos para o Teatro Universitário, em Porto Alegre, cidade onde o paulista e futuro artista estudava e fazia teatro amador. Dois anos depois, Célia foi uma das responsáveis pelo sucesso da venda de cadeiras cativas durante a construção do Teatro de Equipe. Célia publicava no jornal A Hora fotos das senhoras compradoras e conseguimos vender duas lotações. Fala, Célia:
“Caro Mario:
Pensei em ti, em vocês dois do tempo em que os via juntos, quando soube do falecimento da Lara, aquela mulher bonita e talentosa a quem tanto admirava. Agora me preocupa teu estado de saúde que, felizmente, está sob controle. É bom saber que se é lembrado por aqueles que foram cúmplices nas alegrias da juventude e que nem o tempo, nem a distância geográfica os tornam esquecidos.
Um grande abraço com os votos de muita saúde para ti.”
Rafael Guimaraens, parceiro na escrita do livro Trem de Volta – Teatro de Equipe, mandou de Porto Alegre:
Tua coluna ‘No sufoco’ me emocionou muito.
Não conheci a Lara, mas lembro de uma entrevista que ela nos deu sobre o Hino da Legalidade, que reproduzimos no nosso livro. Um trecho:
“Lara: A gente fazia jingles, faixas, frases… Aí o Brizola pediu ao Mario de Almeida, um dos fundadores do Teatro (de Equipe), para a gente criar um hino para o movimento. O clima era contagiante, estava todo mundo dopado em fazer a revolução. E a tarefa que nos foi dada era pra ontem. Como a gente estava em assembleia permanente, o Peréio começou a batucar a música e eu fui pondo os versos. Começava assim: ‘Avante, brasileiros, de pé unidos pela liberdade, marchemos todo mundo de pé com a bandeira que prega a igualdade’ (…) Em quatro dias, a gente já ouvia o hino pela Cadeia da Legalidade. A gente acreditava que ia mudar o país. Era um entusiasmo total”.
O trecho final da entrevista é muito triste.
“Lara: tenho carinho por aqueles momentos históricos. Depois do Médici, quando sofri muito com a minha família, fiquei com náusea de tudo. Agora estou aqui, retirada, com um cachorro e um gato, envelhecendo como pedi a Deus. Ouço música, caminho, escrevo… criei quatro filhos, plantei árvore e escrevi livro. Tenho direito de envelhecer, ter rugas e cabelos brancos”.
Era uma pessoa especial para quem conheceu e não conheceu.
Um abração,
Saudades. Rafa Guimaraens
Márcia Fernanda Peçanha Martins, jornalista gaúcha, poeta e colega de Coletiva.net, após anos de e-mails recíprocos, consegui conhecer – in persona – no Rio. Levei-a para visitar a centenária Confeitaria Colombo e como ela é poeta, quem sabe, sentou-se numa cadeira que já acomodara Bilac? Eu, antigo boêmio, já de copo dependurado, quem sabe (?) valorizei as nádegas em assentos antes ocupados por Paula Ney ou Emílio de Menezes? Márcia, ao pé da coluna, resolveu inflar meu ego:
“Que sufoco – Mais uma vez, a sua coluna é um presente aos leitores. E como não se deve recusar presentes, já me apropriei dela. Linda a tua homenagem a Lara de Lemos e como tu sempre encontras assunto para relatar. Nada como ter um passado rico para dividir. Até quando falas em política (e somos divergentes neste item), o faz com respeito e dignidade. Só posso agradecer de novo. Bjs.”
Do filho de Lara e meu – adotado, mas legítimo – engenheiro agrônomo, professor de Economia e Diretor do Campus Guaíba, Eloí Flores, no seu retorno a Porto Alegre depois do ritual da cremação da Lara, mandou:
“É realidade pura o que escreves sobre a Lara de Lemos e nossa convivência. O elo existente está consagrado, está no nome da tua neta, que bem referes e por isso te agradeço. Foi a forma que eu e a Beatriz achamos de homenagear vocês dois e, por feliz coincidência, a Beatriz tem sobrenome Almeida. Enviei para a Lara Almeida tua crônica. Somos hoje produto e memória de um período ótimo de nossas vidas passadas. Realizamos muitos momentos bons; criamos o que existe de melhor entre redes de famílias: a solidariedade e o afeto. Enfim, estamos catalogando lembranças e escrevendo sobre elas. Que bom que a elevação de Lara de Lemos tenha nos permitido mais esse divino bem-estar.
Cumprimentos pelo lançamento do livro Camaleão. Sucesso na empreitada. Foi bom te reencontrar no dia 15 de outubro.Grande abraço”.
Da sobrinha, arquiteta Silvia Wollf, sempre envolvida com a memória paulista e paulistana, recebi:
“Tio Mario, grande abraço pelas perdas recentes. Adorava o programa de rádio do Cyro del Nero, fiz jograis na escola com poemas da Lara. Enorme abraço pela conquista de mais um livro. Está sendo lançado um meu novo também que inclui a Caetano (de Campos) e as escolas paulistas. É vida passando, é vida rolando. Beijão. Silvia (Wolff), São Paulo.
“Aproveito a leitura da coluna para lhe dizer o prazer que foi ter participado do lançamento do Almanaque, vou agora me dedicar a ler e me deliciar com suas excelentes crônicas, pois considero a boa leitura uma terapia fundamental para manter ativos meus neurônios. Lembro que já o conhecia há tempos, pois moro há 31 anos na nossa aldeia, mas só tive a oportunidade de participar um pouco do convívio consigo por conta da leitura sempre agradável do Semana, que me proporcionou como consequência a chance de nosso contato”. Rubens Moll, fazendeiro e empresário, Rio.
Da vizinha e amiga, aposentada pela Faculdade de Arquitetura (Federal Rio), presidente do CNNF – Centro Nacional de Neurofibromatose, Elane Frossard Barbosa, recebi:
“Querido Mario, começo o dia com esta linda crônica. Emocionante. Sempre que você descreve seus amigos, sinto vontade de conhecê-los. Que vida cheia de emoções é a sua. Obrigado por compartilhar. Parabéns pelo dia de ontem. Vou já começar a ler o livro. Bjs”.
Aos antigos amigos David Hulak, Recife, e Pedro Porfírio, Rio, à sobrinha Ruth e ao mano Eduardo, São Paulo, obrigado.
De Antonio Abujamra, conhecimento paulistano, amizade cristalizada em Porto Alegre e eternizada nas trajetórias, chegou de São Paulo o anúncio de lágrimas:
“Será que tens direito de me fazer chorar, mesmo eu não estando bem? Abraços. Abu.”
Inté.

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