Clônica não é crônica. E divagar é urgente. A criação de Fu Lanestra (a barata acachapante) antecipou minusculamente o desconforto brutal a que somos submetidos ao assistir Sangue Negro.
A gosma jorra do centro da Terra e exponencia infinitamente os defeitos do homem, acrescentando a eles a autodestruição. Começamos a nos preocupar com o que vamos ver quando escolhemos ir ao cinema. Só de pensar, ficamos tensos. Sabemos que lá vem óleo, escuro e pesado, e que essa hipermeleca já nos engoliu a todos. A trilha sonora antecipa, nos primeiros minutos, a tragédia densa que virá, inevitável. A percussão soa em um grito de desespero e a pulsação fremente ecoa sobre as colinas de pedra prenunciando o grande passo que dará o homem na direção do chamado desenvolvimento. Do jeito que surgiu, e como é conduzido, torna o homem uma carcaça – por dentro.
Fu Lanestra (o mal-animal) adorou a ênfase no herói podre que encontrou em um ator absoluto e perfeito a convincente missão de representar o que de pior existe na espécie.
O cardápio das maldades varia entre poder, ganância, enganação, egoísmo, cinismo, crueldade, paranóia e desconfiança. Tudo mais ou menos travestido de iniciativa, esperteza e espírito empreendedor. O trajeto culmina com o sucesso de todos os abjetos aspectos do ser humano e nos encontramos hoje entre medidas pálidas e paliativas de remediar as conseqüências do sucesso irrefreável dessas virtudes negativas.
Sob o ponto de vista da filosofia, o filme é a radiografia do mal. Do seu início à decadência do homem e do meio ambiente, de quando o mundo começou a ser rapidamente destruído em dimensões diretamente proporcionais ao nosso conforto. Nenhuma alma, nem mesmo as crentes em atividade, poderia tecer qualquer previsão sobre o potencial maligno a que chegaríamos.
A visão do filme é simbólica, catastrófica e dolorosa. O óleo derramado sobre a terra estéril, o manuseio irresponsável, a exploração, a abstração dos cheiros – enxofre e gases letais –, o sempre perigoso potencial de desastre por explosão e incêndios, que resultam da extração do mineral, tudo contribui para que permaneçamos durante três horas estarrecidos, paralisados, em pânico, assistindo ao limiar de um futuro onde hoje estamos.
Com o conhecimento que hoje não se estanca, vendo aquele oceano límpido ser ameaçado por toneladas de óleo, dá vontade mesmo de parar a fita – do tempo. Descobrir outra maneira de crescer e desenvolver. Apagar esse elemento escuro e mal cheiroso, cujo leito são as veias da Terra e que passa a correr dentro do homem a partir da atuação de Daniel Day-Lewis. Por isso esse ator leva tanto tempo para se livrar de suas personagens: porque elas ficam grudadas até mesmo nos espectadores.
O filme não traz mulheres e sua contribuição emocional e afetiva, exatamente porque elas fariam um contraponto de toda essa crueza. Albert Einsten já dizia que a origem da guerra está no caráter sexual masculino. E tinha toda a razão. As mulheres são coadjuvantes. Pertencem a seus homens e basta. São cenário e infra-estrutura. Essa realidade é bem verídica. São donas-de-casa e massa de manobra da Igreja. Acreditam no Bem, acreditam na bênção, na magia e nas vozes do além. Acreditam na mediação dos pastores, fazem a Igreja tomar corpo e se aliar ao progresso. Uma fé que soa vazia e equivocada, tanto quanto qualquer defesa que pudesse ser feita em nome da ética ou em favor do meio ambiente. A voz feminina é nula, conivente, menor, burra e cúmplice. Enquanto Fu Lana entra em depressão, a barata Fu Lanestra comemora. É um duelo desigual. Salva-se disso tudo o cinema, que faz mais um gol de placa, nesse clássico recém-nascido.

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