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É como ir ao teatro

De tanto a gente ir ao cinema, acaba se acostumando à boa vida, devidamente afastado da tela. Porém, no teatro – e quem vai …

De tanto a gente ir ao cinema, acaba se acostumando à boa vida, devidamente afastado da tela. Porém, no teatro – e quem vai ao teatro sabe qual é a sensação –, o esforço é maior. Pois o filme Dogville exige do espectador essa complementação mental.

O teatro desnuda a cena e deixa o talento aparecer sem subterfúgios. A luta é da consciência e, por mais que a gente se esforce em evitá-la, ela vai entrando, pelos sentidos. Em Dogville, é assim. O sujeito sente o incômodo de cara. Como se estivesse em um teatro de arena, vendo-se dentro da cena. Como é gostoso perceber, a olho nu, o trabalho dos atores. Afinal, cinema não são só caras e bocas. Como voyers que somos, por que não eliminar logo as paredes e o cenário? É minimal. Esse diretor já abriu mão de muitas coisas. Trilha sonora, por exemplo. Ouvi que em certa época teria optado, conscientemente, pelo verdadeiro som das cenas, dispensando qualquer outro recurso.

Em Dogville, a história se constrói como em uma peça de Shakespeare, onde o cotidiano torna espesso o enredo e as circunstâncias te levam à insensibilidade. Há toda a semelhança com a busca do paraíso na América onde a solidariedade não encontra espaço e, no final, nos tornamos todos cretinos.

A gente se sente em casa, na verdade, e é isso que incomoda no filme. Identificados com qualquer personagem, é como em uma casa de espelhos onde o nonsense é presente e o surreal é instrumento para a construção do que vemos. Que somos nós e os outros. Só. Algumas pessoas se sentem ludibriadas, enganadas, enroladas. Mas há que se perceber: depois da arte moderna, onde a desconstrução foi a tônica, por que a pesquisa ainda é tão incômoda? A busca por uma linguagem despojada, uma crítica à insensibilidade, um pôr-a-prova o pobre espectador, que por ir ao cinema demais, está sempre em sintonia com o entretenimento. Nada há de errado em diretores que experimentam outras linguagens. Que nos fazem ver as coisas de outro jeito, dando aquela sacudida em toneladas de poeira, com talento e dedicação. Bom, sempre, para nós.

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Autor

Clo Barcellos

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