Todos os dias deste janeiro de 2011 amanhecem iguais. Todas as noites deste primeiro mês do novo ano terminam iguais. As rotinas, com raras exceções, são quase sempre as mesmas. Ralar muito durante a semana, amargar na sexta-feira um engarrafamento na freeway e rezar para um sol camarada no final de semana na praia. E, para os que ficam em Porto Alegre nos meses de janeiro e fevereiro, a bola da vez é aproveitar a calma da capital e ir ao cinema, ao súper, ao banco, ao comércio, sacudir o esqueleto nas baladas, fazer um happy na Cidade Baixa. Para todas as situações, existem alternativas. Basta operá-las.
Mas, para a saudade física, aquela que corrói as emoções das pessoas e aniquila o bem-estar físico e mental, não há solução conhecida. Apenas paliativos. A releitura de um livro emprestado que ainda não foi devolvido: “As travessuras da menina má”, do Mário Vargas Llhosa. Um almoço na corrida com a Tia Margarida e duas amigas da Confraria de Brasília e haja assunto. O happy organizado pela amiga da Saudosa Maloca para ouvir um chorinho na quinta-feira à tardinha. E o jeito é ocupar o tempo.
Só assim é possível abafar a danada da saudade que se alojou nos meus dias e noites desde que a minha filha Gabriela foi para a praia, cumprindo o acordo que determina a divisão das férias no caso de pais separados. Porque não escutar a voz de Gabriela contando suas histórias, no telefone com as amigas, brincando com os cachorros, é como um dia sem sol, um Grenal sem gol, um verão sem picolé, um churrasco sem costela, um carnaval sem Máscara Negra, um domingo sem cinema. As coisas acontecem como devem acontecer, mas perdem a graça quando Gabriela não é protagonista e nem coadjuvante.
Não pensem que ela se encontra há muito tempo na praia. Nada disso. É o tempo suficiente para uma sócia remida e quase fundadora da Associação das Mães que Amam Demais (AMAD) sentir-se desolada. E sozinha. E desorientada. E entristecida. E chorona (até aí não vai novidade nenhuma). O tempo suficiente para olhar as fotos do seu nascimento, do aniversário de um ano, da formatura da creche, da festa no teatro, do balé, da Disney. O tempo suficiente para lavar os bichinhos de pelúcia que ainda ocupam as prateleiras do seu quarto. E as roupas das bonecas que ela ainda guarda. E arrumar seus livros, discos…
Para a saudade, não existe tempo suficiente e nem prazo de validade. Para a saudade, dois dias é uma eternidade, um mês é quase um século. Para esta saudade chata e cheia de razão que acomete as sócias da AMAD, um telefonema apenas atenua, mas não resolve. Um beijo por email sossega, mas não sepulta a dor.
Para esta saudade materna, o calendário, em vez de mostrar que já se passaram tantos dias, serve somente para lembrar que ainda faltam muitos dias. A lógica nunca é a lógica quando se trata de saudade de mãe. O óbvio sempre é complicado. E não existe remédio similar, com receita ou tarja preta.
Agora, apesar dos 30 e muitos graus desta Porto Alegre que explode de calor no verão, é inverno total em minha vida. Existe um cenário cinzento dentro do meu apartamento, onde não ouço os passos de Gabriela, onde não vou pegar a toalha que ela esqueceu molhada na cama, onde não sento com ela para tomar café da manhã e nem comer as pizzas congeladas à noite. É muito frio, muito sem cor, muito nublado, muito sem vida.

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