Não sou uma pessoa católica. Nem também uma completa descrente ou adepta do ateísmo. Sem religião definida e confessa. Nada de muito fanatismo. Sei lá. Tenho algumas esquisitices esotéricas. No entanto, admito nutrir um sentimento especial pelas emoções do Natal. Pelos enfeites dourados, prateados e piscantes que ornamentam as lojas, supermercados e as casas. Pelas felicitações expressas nos emails e nos apertos de mãos que nem sempre se conhecem. Pela combinação antecipada dos comes e bebes da noite de 24 de dezembro. Pela expectativa infantil do que pode esconder aquele presente com meu nome depositado embaixo da árvore surrada de muitos anos.
Tradicionalmente a minha rotina de preparação para a noite natalina se encerra na primeira semana de dezembro. Para evitar aqueles atropelos de última hora que são sinônimos de dores de cabeça. Não me contaminar pelo consumismo exagerado e que exige paciência nas filas dos grandes magazines. Não torrar o 13º todo. E para sobrar algum tempo e disposição para honrar os compromissos festeiros que pipocam no mês de dezembro.
E tem sido assim o meu cotidiano pré natalino há anos. Sem histeria na véspera do Natal. Sem risco de esquecer o presente para o amigo secreto ou para um familiar mais distante. Sem o perigo da falta de planejamento. Para que seja possível o sossego na noite de 24 de dezembro. Com o desejo escancarado de sentir todas as emoções que o natal sempre proporciona. Com a magia da ideia de que o Natal representa o nascimento, uma união familiar em torno de momentos de paz, de confraternizar, de conversar, de perceber como as crianças cresceram, de amar as pessoas que nos são próximas e distribuir carinhos.
Pela primeira vez desde o meu nascimento, o Natal será incompleto. E triste demais. E melancólico. Não ouvirei mais a voz daquela pessoa insistentemente pedindo que os presentes fossem abertos às 22 h senão as crianças pegariam no sono (mesmo quando não existiam mais as crianças ou quando elas dormiam bem mais tarde). Não sentará mais ao meu lado aquela pessoa perguntando inúmeras vezes se eu gostei da cor da blusa que ela havia me dado. Não terei ninguém para vigiar os meus goles roubados de champanhe. Não haverá mais a pessoa que disfarçadamente comia todas as cerejas da ceia. E nem mesmo a pessoa que me acompanhava para cantar “Noite Feliz”.
Na noite de Natal de 2011, não terei a presença de minha mãe, que faleceu em 4 de julho. Na árvore de Natal de 2011, não encontrarei mais a sua letrinha na etiqueta dos presentes. Na ceia da noite de 24, minha mãe não insistirá para que todos comam mais um pedaço daquele peru, que experimentem a torta fria de camarão que ela preparava ou as sobremesas que meu irmão se esmera em apresentar. Ela estará insuportavelmente ausente. E permanentemente presente nas lembranças dos filhos. Em cada olhar nosso de afeto. Em cada memória que repassaremos aos netos e bisnetos. Em cada tradição que ainda iremos cultuar.
Ao contrário de tantos natais passados, pensados e vividos com antecedência na minha rotina, este jamais foi planejado, nem sonhado, nem desejado. E a dor dele pode ser bem maior do que eu suponho.

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