De repente, não mais que de repente, como já escreveu o poeta, poetinha camarada Vinícius de Moraes, no seu Soneto da Separação, tudo começou a dar sinais de esgotamento aqui em casa. Eletrodomésticos pifando, resistências queimando, persiana da sala emperrando, lâmpadas estourando e eu, sempre que me levanto da cama no meio da madrugada ou do sofá da sala em plena luz do dia, esparro em algum móvel que sempre esteve ali. Se fossem só batidas e empurrões deste corpo cansado de estar trancado há 437 dias no isolamento, eu até entenderia, mas quando até a rebimboca da parafuseta começa a falhar, há algo mais no reino da Dinamarca.
Com a calculadora em punho para priorizar os consertos mais urgentes conforme permite o orçamento de uma aposentada, o dedão do pé inchado de bater na quina e uma reunião virtual a me chamar, resolvi abrir a agenda de papel (sim, eu ainda tenho) e decidir a melhor data para chamar os técnicos. O detalhe importante é que, como estou no mais total confinamento, qualquer dia é apropriado. Já a hora, não sendo de manhã porque continuo a dormir até tarde, é perfeitamente aceitável. Foi quando percebi que estamos no dia 26 de maio. E daí, você, meu leitor e minha leitora indaga com toda razão?
Estou no meu período de inferno astral, quando tudo o que pode realmente dar errado na vida de uma pessoa acontece. Eu acredito em astrologia, em fadas, anjos e duendes. Segundo pesquisei no google – a fim de não escrever bobagem – o inferno astral nada mais é do que os 30 dias que antecedem o aniversário. Neste tempo, é comum que algumas encrencas ocorram, que os processos não fluam e, em consequência, o humor fica instável porque parece que o universo conspira contra a gente. Agora, um conselho: evitem cruzar com uma geminiana, que já é a própria instabilidade, quando seu humor piora pelo inferno astral.
Ao perceber que me encontro no tal furacão do temido inferno astral também cai na realidade que será o meu segundo aniversário no confinamento. Para uma geminiana que faz aniversário no dia 9 de junho (anotem aí, heim?), com sol, lua e ascendente em gêmeos, do segundo decanato, mas já com o pé querendo invadir o terceiro decanato, passar a data sem festas com a família e encontros com os amigos e amigas nos bares da vida, é muito triste. Mas, em 2020, em que fechei um número redondo (e juro que não revelo qual), eu tive tantas surpresas que a data chegou a ter um ar festivo.
Então, vamos ver pelo lado positivo e esquecer as mazelas do inferno astral. A chegada do aniversário é o começo de um novo ciclo e se algo saiu do eixo, irá voltar ao seu devido lugar. De resto, as movimentações planetárias até que giram ao meu favor: consigo seguir no isolamento, tenho a melhor filha do mundo que me mima sempre, família amorosa, amigos e amigas que se preocupam comigo e são solidários e tenho saúde. Sim, já fiz primeira dose da AstraZeneca, sou metade jacaré fêmea, tomei a vacina da gripe, tenho agendada a D2 da vacina contra a Covid e carrego tantos, mas tantos planos, que 30 dias de inferno astral não vão atrapalhar.


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