A primavera, estação das flores, das alergias (rinites e sinusites), período em que as temperaturas tendem a ficar mais amenas e ocorre, tradicionalmente, um aumento da ocorrência das chuvas, chegou no Hemisfério Sul às 21h05 do dia 22, terça-feira. E com a promessa preocupante de um volume de chuvas acima do normal para o próximo trimestre (a primavera se encerra em 21 de dezembro), conforme apontam as previsões meteorológicas. Para os moradores do Rio Grande do Sul, que trazem na memória cenas tristes e desoladoras da enchente de 2024, tais previsões são muito assustadoras. Ninguém quer viver outra vez o pesadelo de abril e maio daquele ano.
Isso porque o temível El Niño, fenômeno conhecido por intensificar as chuvas, tende a ser um dos mais intensos registrados desde 1950, informa a News da Matinal do dia 22 de setembro. Tudo que os gaúchos e as gaúchas não queriam era uma nova tragédia climática. E, por isso, a qualquer pingo de chuva um pouco mais insistente, os nossos medos se potencializam. Não sem razão.
Na madrugada de segunda-feira (21), como a alimentar o nosso medo e talvez preparar a estreia da primavera, vivemos uma amostra do que nos espera (segundo as previsões) para os próximos meses. Chuvas intensas, rajadas de vento, deslizamentos e alagamentos voltaram a penalizar cidades do Estado. De sexta-feira até a tarde de segunda-feira, a Defesa Civil já havia contabilizado ocorrências em 119 municípios com efeitos danosos da tempestade afetando mais de 485 mil pessoas, deixando 802 desalojadas ou desabrigadas e 890 mil consumidores sem energia elétrica.
E o tal do El Niño ainda nem estremeceu os céus e o solo do território gaúcho. Imaginem quando ele chegar. Não gosto de pensar nisso. Na enchente de 2024, a minha rua ficou totalmente alagada, intransitável, e as residências sem luz e sem água. Precisei abrigar-me no apartamento da minha irmã por um tempo considerável. Não tive perdas materiais. Não vi minhas memórias serem levadas pelas águas. Não contabilizei prejuízos maiores. Mas sofri muito pelos moradores e moradoras do Estado vitimadas pela força das chuvas.
Tenho um sono pesado e profundo. Dificilmente desperto com barulhos na rua, que é sempre bem movimentada. Lá pelas 02h30 da madrugada de segunda-feira, acordei assustada com o barulho do vento nas persianas, a derrubar árvores e arrastar folhas e lixos não recolhidos das calçadas. Dizem que as rajadas de vento chegaram a 93,2 quilômetros em alguns bairros de Porto Alegre. Custei a voltar a dormir. Embora tenha tentado, imaginei que os ventos e as chuvas iriam produzir, mais uma vez, inundações, deslizamentos, pessoas desalojadas e mortes.
Se não podemos mudar o roteiro do El Niño, devemos nos esforçar para reduzir seus danos, no futuro, em outras ocorrências. Nas próximas eleições (e não vou fazer aqui campanha para ninguém e nem citar nomes), escolha candidatos e candidatas comprometidos com a resiliência climática, com a preservação do meio ambiente, com a redução de danos de efeitos climáticos, com a construção de obras de proteção, redução na emissão de gases de efeito estufa e que não trate esse assunto como evento sem importância. Esse é o nosso papel.


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