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Elisquecível Regina

A primeira vez que ouvi sua voz a me hipnotizar não deveria ter mais do que sete anos. E o som saiu da pequena …

A primeira vez que ouvi sua voz a me hipnotizar não deveria ter mais do que sete anos. E o som saiu da pequena televisão preto e branco que meus pais haviam conseguido comprar à custa de muita economia. Numa folga na tarefa de ajudar minha mãe com os irmãos pequenos, fugi para a sala e me encantei com aquela mulher baixinha, sorridente, com um coque estranho a puxar os cabelos pretos para cima. A pequena cantora, ao participar de um festival de música da TV Excelsior – famosos na época – balançava os braços descontroladamente e  afirmava que teria sim arrastão. Era final da década de 60 e eu, sem ter a mínima ideia do que fosse arrastão, aprendi a tal música e cantava nas vezes em que precisava fazer meus irmãos dormirem. Coitados deles porque sempre fui um fracasso total em harmonia e afinação.

O tempo foi passando e eu aprendendo outras músicas cantadas pela Elis Regina. Nesta altura, a guria gaúcha que saiu do bairro IAPI, em Porto Alegre, para tentar a sorte no centro do País, já fazia um sucesso estrondoso. Com os recursos de que dispunha – e desde que não atrapalhasse os estudos – sempre que ela apresentava uma nova música, eu dava um jeito de aprender rapidinho para fazer coro nas aparições de Elis na televisão ou quando o meu pai tirava o rádio dos noticiários e alguma emissora colocava para rodar a nova canção. Depois, ficou difícil para uma estudante acompanhar o ritmo alucinado de sucessos que a cantora lançava na Música Popular Brasileira.

Mais tarde, por volta dos meus 15 anos, meu pai chegou com uma fita cassete que reunia músicas do show Falso Brilhante e outras canções. Sem dar tempo de meu pai esboçar qualquer reação, me adonei da fita cassete, que tinha entre outras preciosidades “Na batucada da vida”, “O rancho da goiabada”, “Travessia”. Naquele tempo, nossa família veraneava na Colônia de Férias da UFRGS, em Tramandaí. E eu torrava a paciência dos vizinhos de tanto que escutava a fita cassete. E nas rodas de samba, na mesma colônia, no início das noites, sempre pedia para que fossem tocadas músicas que Elis cantava. Algum tempo depois, fui apresentada pelo meu primeiro namorado a uma das músicas cantadas pela Elis que eu mais gosto: “Atrás da porta”, do Chico Buarque, que se especializou em entender a alma feminina.

O primeiro namoro terminou, mas a música, desde então, mexe demais comigo. É como se nela coubesse toda a dor do mundo e os versos fossem uma espécie de oração para reduzir tamanho sofrimento, e não se agarrar nos pelos, no pijama, nos pés ao pé da cama, sem carinho, sem coberta, no tapete atrás da porta. Nunca mais eu consegui ouvir esta música sem derramar rios de lágrimas. É algo inexplicável.

No especial Elis Regina Carvalho Costa, que foi exibido pela Rede Globo no início dos anos 80, não foi possível para Elis conter a emoção. Sentada numa cadeira, no canto do palco, ela chora compulsivamente cantando a música “Atrás da porta”. Embora fosse habitual sua entrega derradeira em todas as interpretações, a do especial da Globo tinha um ingrediente adicional. Elis recém havia se separado de César Camargo Mariano, seu parceiro musical e seu marido desde 1973, pai dos filhos Pedro e Maria Rita. Depois do show, Elis e Cesar reataram, mas ficaram pouco tempo juntos.

Em 1981, ela arrasa com o show Trem Azul. Uma loucura. A crítica não tinha receio em decretar mais uma vez: ali estava a maior cantora deste país. As multidões lotavam os teatros, ginásios e locais onde a Pimentinha passava com o show. Fiquei sabendo que Trem Azul viria para Porto Alegre em outubro. Recém havia gasto minhas economias para um show no Gigantinho do qual me arrependo amargamente. Tentei fazer uns bicos, mas os extras não renderam o suficiente para comprar os ingressos para o show. Resignada, fiquei em casa, e não assisti ao último show dela que, na minha opinião, é a maior e melhor cantora do Brasil. Incomparável. Insubstituível. Elisquecivel.

Numa manhã de janeiro de 1982, a voz calou-se, emudeceu. Sua morte, aos 36 anos, causou comoção nacional. Mas, nunca Elis esteve tão viva na mente e no coração de seus fãs. Como eu que coleciono todos LPs da Pimentinha e compro qualquer CD ou DVD dela que ainda não tenha. Ela completaria 70 anos na terça-feira, 17 de março, o que motivou lançamento de site oficial, promoção de alguns shows no meio do ano, em São Paulo, e o livro “Elis Regina – Nada será como antes”, do jornalista Julio Maria, uma biografia inédita sobre a vida da cantora.

Como ainda estou desempregada (atenção mercado: quem precisa de uma jornalista competente, é só chamar), já avisei em casa para minha filha. Meu primeiro presente, de Dia das Mães ou de aniversário, é o livro de Julio Maria. Até lá, como sempre faço, vou gastando meus CDs e DVDs ouvindo e vendo a maior cantora deste País.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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