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Em memória de José Conceição

De cada vez que parte um antigo companheiro, é como se um guerreiro, após mil batalhas, deixasse a arena para o repouso merecido. Foi …

De cada vez que parte um antigo companheiro, é como se um guerreiro, após mil batalhas, deixasse a arena para o repouso merecido. Foi o que senti nesta manhã de terça-feira, ao ler em Zero Hora a morte de José Conceição, cuja passagem pelo rádio foi curta – de 1948 a 1953 –, porém suficiente para inscrever seu nome na crônica daquele tempo.

Conceição era uma feliz combinação de caráter e talento, temperada com o espírito de luta que o fez ascender da condição de menino pobre a empresário da área imobiliária, após cursar engenharia. Para chegar lá, entretanto, antes de ingressar na Rádio Gaúcha, desde cedo trabalhou para completar o orçamento da família. Freqüentadores ainda remanescentes do velho Cinema Avenida, João Pessoa esquina Venâncio Aires, ainda hão de se lembrar do garoto que lhes anunciava: “Baleiro, báleis”, e o “báleis” era um tosco recurso de marketing, quando ainda nem se sabia o que era isso, inventado não se sabe por quem, para substituir o nada eufônico “balas” dentro do pregão.

Concluído o curso secundário, Conceição escreveu a Cândido Norberto, diretor de broadcasting da Gaúcha, ainda no sobradão da Rua Sete de Setembro, expondo-lhe a situação pessoal.

Naquele tempo, eu ingressara, fazia pouco, como produtor na emissora, o primeiro de uma equipe de gente afeita a escrever, dentro de um projeto de Cândido Norberto que haveria de levar a então PRC-2 a líder de audiência no Rio Grande do Sul. 

De tão bem redigida, a carta de Conceição levou Cândido a aproveitá-lo na produção de programas e me encarregou de submetê-lo a um teste. Uma semana depois, ele se locomovia como veterano, junto com Luiz Gualdi, vindo do Colégio Militar e contratado pela Gaúcha na mesma época.

Nos poucos anos seguintes, Conceição construiu a carreira artística como apresentador de programas e radioator, até formar-se em engenharia, quando mudou de profissão e para lá transferiu seu sucesso pessoal. Nos tempos que se seguiram, nós nos encontrávamos eventualmente. Falávamos daqueles tempos idos e, diante das turbulências contemporâneas, interrogávamos, sem obter resposta, os tempos vindouros.

Agora, diante da notícia da sua morte, ao fazer o balanço do que conheci e compartilhei de sua trajetória, concluo que foi um exemplo de vida, provavelmente a resposta para as nossas indagações. Não é a pobreza material que molda o caráter.

É o contrário: o caráter é que molda a vida da gente.

Autor

Jayme copstein

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