“…Quando passeio por Paris, parece
que perambulo por dentro de mim mesmo e que
tropeço incessantemente em minha infância.”
(Julien Green)
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Antes de dar crédito às listas do tipo “As dez coisas que odeio em Paris”, é bom ver quem as escreveu. Na Internet existem centenas (milhares?) de páginas e blogs de pessoas que visitam Paris durante três dias e depois escrevem afoitamente sobre a cultura, usos e costumes da França e dos franceses. Usualmente, são queixas sobre chuveiros que não funcionam, o mau cheiro dos ‘pissoirs’ ou sobre os africanos que insistem em nos vender miniaturas da Torre Eiffel feitas na China. A atitude inteligente é ignorar a opinião dos outros e viajar de mente aberta. Paris é uma cidade única no planeta e uma experiência fantástica para quem a visita pela primeira – ou pela décima vez. E, justamente por tudo isso, a Velha Dama é assediada pelos milhões – que lhe causam tantos problemas e provocam o permanente mau humor dos parisienses.
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Podemos encontrar este folclórico mau humor dos residentes até mesmo em lugares chiques e exclusivos, como na centenária La Pâtisserie des Rêves, na Rue du Bac. Em recente visita, fiquei encantado com uma bandeja de douradas madelaines, recém saídas do forno. Não me contive e elogiei, no meu francês menos do que perfeito:
“Ce sont très jolie, madame.”
A gerente, que até então se mostrava amável, fechou a cara e lascou àsperamente:
“Ce ne sont pas jolie, Monsieur. Ce sont delicieux!”
Não entendi nada e saí da loja sem as madelaines, já que madame foi atender outras pessoas. Mas não demorou para que entendesse o que acontecera. Jantando naquela noite com amigos parisienses, ganhei uma pequena lição sobre o imprevisível o humor francês. Aprendi que deve se evitar a palavra jolie para elogiar um prato ou um vestido. É quase pejorativo, algo como dizer que um Chanel ou um Beef Bourguignon “são bonitinhos”…
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O chef e escritor californiano David Lebovitz, que vive em Paris, há anos tenta evangelizar os norte-americanos para que entendam os franceses e evitem as armadilhas para turistas. Em seu livro “The Sweet Life in Paris” ele antecipa as reações dos que visitam Paris pela primeira vez:
Vai amar – “O som de saltos altos nas ruas de paralelepípedos”.
Vai odiar – “Cocô de cachorro nas calçadas”.
Vai amar – “Quando acendem as luzes da Tour Eiffel”.
Vai odiar – “Os bandos de pombos fazendo cocô em sua cabeça.”
Vai amar – “Sentar ao sol às margens do Sena e tomar um gelato”.
Vai odiar – “Clochards pedindo esmola ao redor de Notre Dame”.
Vai amar – “A sobremesa Île flottante”.
Vai odiar – “Esperar por 3 horas nas filas da Tour Eiffel”.
Vai amar – “Ouvir os sinos de Notre Dame na hora do Angelus”.
Vai odiar – “Os serviços postais franceses”.
Vai amar – “Os violinistas no Metro”.
Vai odiar – “A multidão de árabes e chineses nas lojas de grife”.
Vai amar – “O aroma dos crêpes de chocolate”.
Vai odiar – “Mercados de frutas depois das 11 horas da manhã”.
Vai amar – “Croissants frescos no café da manhã”.
Vai odiar – “Os aromas suspeitos no Metro lotado às 6 da tarde”.
Vai amar – “Usar a moda parisiense antes do que todos”.
Vai odiar – “Bistrots franceses com chef e garções vietnamitas”.
Vai odiar – “Motoristas de taxi que não falam inglês – nem francês”.
Vai amar – “As velhinhas e seus petit chiens nos Jardins de Luxemburgo”.
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E David Lebovitz arremata – se seus “vou odiar” superam seus “vou amar”, só resta uma coisa a fazer – fique em casa.


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