“Não importa o lugar em que eu esteja em Paris,
tenho sempre a impressão que eu sou a
única pessoa sem convite para a festa”.
(Jack Lemmon).
Já devo ter escrito dezenas de listas sobre o que mais me encanta em Paris. Algumas para revistas de turismo, outras, para amigos, marinheiros de primeira viagem, ansiosos para apresentar a cidade à nova esposa. Aconteceu que, no ano passado, cheguei a Paris na época errada – em plena alta-temporada. E, para completar, estava lendo a auto-biografia de Jack Lemmon, onde ele conta de seus desencontros e desilusões parisienses. Assim, me preparo para escrever algo como um “Guia de sobrevivência em Paris” ou “As dez coisas que você NÃO deve fazer na Cidade Luz”.
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Tentando aparentar a maior non-chalance possível, entro no nº 13 da Rue de L’Ancienne Comedie. Menciono a reserva feita com dois meses de antecedência, o que não comove nem um pouco o maître d’, que me leva até uma mesa – debaixo de uma escada e junto à porta da cozinha. Tento disfarçar a desilusão, admirando o belíssimo salão, adornado de dourados e vermelhos.
Naquelas mesas, artistas, poetas, heróis e revolucionários tomaram sopa de cebolas e bebericaram o absinto proibido. Mas meus devaneios são interrompidos pelo maître d’, que me apresenta o imenso cardápio forrado em couro. Tento navegar pelos pratos que fizeram a glória da casa e que levam o nome de ilustres comensais do passado. Mas o maître d’ me sugere o plat du jour. Logo entendo o motivo de sua impaciência. Um animado grupo entra no salão e se dirige para uma grande mesa ao fundo. São todos chineses, sorridentes e bem vestidos. Naquele mesmo instante, cada garçom no salão corre para atendê-los. Agradeço ao maitre e saio em busca de um bistrot que não seja um marco histórico nem esteja povoado de turistas.
Quel dommage!
A venerável casa, fundada pelo siciliano Francesco Procopio em 1686, desde o século 18 se chama Le Procope. Foi uma referência por sua cozinha e pelo serviço impecável. E, por décadas, um endereço de prestígio, procurado por personalidades como Victor Hugo, Frédéric Chopin, Charles Chaplin, Quentin Tarantino, etc. Atualmente, é uma atração para turistas, que amam ser fotografados na cadeira junto à lareira, que leva o nome de um antigo frequentador, o então tenente Napoleon Bonaparte.
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Eu já ouvira de amigos parisienses lamentações sobre os efeitos da modernidade, que ameaça ícones históricos da gastronomia. Afirmam que, a cada ano, desaparecem do mapa de Paris antigas boulangeries, boucheries, poissonneries e outras eries que marcaram a vida de gerações. A alegação é que a classe média consumidora foge da cidade em julho e agosto, para suas famosas 9 e 1/2 semanas de férias, no campo ou na Côte. E que as multidões de turistas, que lotam a cidade no período, não têm tempo ou paciência para a culinária francesa.
A maioria não entra em bons bistrôts, preferindo as pizzas de microondas da Franprix ou as refeições pré-prontas do Monoprix. Apesar de tudo, certas casas com tradição centenária aprenderam rápido as regras da modernidade e os novos hábitos de consumo.
Há exatos 110 anos, a Maison Angelina está no nº 222 da rue de Rivoli. Desde sempre, foi um salon de thé et chocolat tradicional, frequentado por gourmets e elegantes de várias nacionalidades.
Ali se serve um chocolat chaud, espesso e perfumado, que já fez muita gente perder o juízo. Ao flanar pela rue de Rivoli, eu antecipava os sabores de Éclairs, Millefeuilles e Baba au rhum, alguns dos meus pecadilhos favoritos em Paris.
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Mas não seria naquela tarde de julho que minhas carências por chocolate seriam satisfeitas. A casa estava lotadíssima e a recepcionista – que bem poderia ter saído de um desfile de Givenchy – me diz que preciso retirar um número e esperar a vez. Um impaciente francês, à minha frente, ao ver seu número – 231! – profere um sonoro:
Merde, alors!
Ele abandona a fila. Eu o imito e abro caminho até a saída. Chegamos juntos ao ponto de táxi e ele diz que vai até o ‘A la Mère de Famille’, no 9th arrondissement, e pergunta se quero dividir um táxi até lá. Conseguimos um, cujo motorista também parece precisar de uma boa xícara de chocolate. No trajeto, meu novo amigo desfila pesadas imprecações contra os turistas que invadiram sua Paris. Diz que os lugares que frequenta ou estão lotados ou os donos fugiram para o campo.
Mas muda de humor quando quero saber do La Mère. Ele compra chocolates ali desde garoto e diz que o nome da casa vem de Marie Adelaïde Bridault, que assumiu a chocolateria após a morte do marido. Foi em 1761, no mesmo ano em que outra madame, de nome Clicquot, também ficou viúva e criou a mais famosa champagne do mundo. Desde então, a ‘A la Mère de Famille’ passa a ser conhecida como a “La Veuve Clicquot du chocolat”.
Ao chegar na charmosa esquina da rue du Faubourg Montmartre, vejo que o francês não exagerou. Muitos clientes à espera, mas somos servidos em poucos minutos e com fidalguia. Provo o chocolate quente, tão denso e cremoso que preciso usar uma colher (de prata, a propos). No balcão, escolho uma caixa amarela de estilo art-noveau, com doze barras de chocolates para degustação. São feitas com 80% de cacau de origem (Madagascar, Equador, Colombia). Na caixa, pequenos potes de geléias caseiras de frutas cítricas, indicadas para ressaltar os sabores dos chocolates.
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Carregando minha sobremesa, saio caminhando pelas ruas do quartier. É noite de sábado, estamos em julho e é preciso achar um bistrot que esteja aberto e sem filas à porta.


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