Com a notícia, já antiga, de que a Caixa Econômica Federal desistiu de mais de 35 mil ações na Justiça, vem outra, dando conta que os incréus de uma pequena cidade do Nordeste conseguiram rapidamente do juiz de Direito a proibição de o pároco local tocar os sinos da igreja de manhã cedo.
Os dois casos retratam a Justiça brasileira. Se depois de tanto tempo, por derrotas sucessivas em pendengas anteriores, a Caixa se convenceu que não tinha razão nos 35 mil processos, a sua manutenção durante anos, com interminável recurso aos tribunais superiores só significa litigância de má-fé. Não é para menos que todos esses processos se referem à correção garfeada do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.
Não só a litigância da má-fé da Caixa não mereceu nenhuma objeção do Judiciário como jamais foi movida uma palha para investigar a caixa preta do FGTS. Onde foi parar o dinheiro garfeado?
Em compensação, na hora, ali na batata, a igrejinha nordestina foi proibida de tocar seus sinos, porque alguns incréus dorminhocos alegaram que lhes perturbava o sono. No meio de tanta roubalheira, de tanta incompetência, de tanta omissão, é espantoso que a única coisa que não os deixe dormir são as badalações de um padreco.
Quem tem razão é o Manoel, o filósofo português que não vê necessidade de inventar piada de brasileiro. É um país realmente muito gracioso.
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Há uma polêmica nos jornais, trazida por ilustre advogado criminalista, sobre uma senhora algemada por policiais militares, após “apenas ter se envolvido em um acidente de trânsito”, segundo uma das partes, mas após “a constatação de irregularidade em seus documentos de condução do veículo, desacato aos policiais e ter tentado atropelar um deles”.
São versões conflitantes das partes envolvidas, mas com toda a certeza esta senhora não mora na Vila Cachorro Louco. Se morasse, deixaria de ser uma “senhora”, para ser reduzida a “uma mulher” e ter o nome estampado com todas as letras no noticiário. A árvore genealógica não, porque naquelas bandas quase ninguém sabe quem é. Não tem como alegar o “sabe-com-quem-está falando”.
Chama a atenção o que se pretende da Polícia aqui no Brasil. Os governantes escamoteiam as verbas para treiná-los e equipá-los porque têm outro destino a dar ao dinheiro. Destino, aliás, que caberá à Polícia investigar depois, para definir a legalidade ou ilegalidade, o que dependerá, também, de “quem está falando”, mesmo que não tenha nenhuma árvore genealógica em seu pomar.
Na planície habitada pelo cidadão comum, a Polícia serve para exigir dos “outros” o cumprimento da lei e dos deveres de cidadão. Por que ela não está lá onde todos os crimes são cometidos? Por que ela teima apenas em comparecer quando “eu”, cidadão direito, cumpridor dos meus deveres, decido deixar de ser tão direito acima e descumprir meus deveres?
Manoel, o grande filósofo lusitano, não diria desta vez – que país gracioso. Apenas diria – que país curioso.

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