“Para sobreviver, é preciso contar estórias.” (Umberto Eco, “O Pêndulo de Foucault”)
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Ali estava ele, o grande homem em sua biblioteca, em um castelo do século XVII, em plena Itália central. Ele passeia o olhar pelos mapas antigos, pelas prateleiras coalhadas de livros e pousa a mão no globo terrestre que poderia ter pertencido a Gallileo Gallilei. Respirei fundo – eu estava sonhando, com certeza. Eu não estava no alto dos Apeninos, prestes a entrevistar um dos mais brilhantes pensadores de nosso tempo.
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O trem deixara a Stazione Termini no momento em que Roma se preparava para a festa da L’Immacolata Concezione. Era pleno Ferragosto e a viagem até a costa do Adriático durou quase toda a manhã. De Ancona, o pequeno Fiat alugado enfrentou com bravura a estrada que galga a montanha até a cidade murada de Urbino. As poucas placas não ajudam e, por duas vezes, entrei em estradas vicinais que levavam a lugar nenhum.
Na entrada de Urbino, um agricultor em seu fumarento trator me aponta a ladeira que leva às muralhas, onde quase que por acaso, encontro o castelo.
Quando estaciono o carro junto aos ciprestes, a porta dupla se abre e um homem alto e corpulento faz um gesto para eu entrar. Um grande salão transformado em biblioteca. Poucos móveis – apenas sofás e poltronas, uma pesada mesa de convento e prateleiras de livros, do chão ao teto. O dono da casa fez um vasto gesto que abarca o salão, como quem apresenta credenciais:
“Trinta mil volumes aqui – e mais vinte mil em Milano.”
Interrompe para atender o celular e eu aproveito para examinar a prateleira mais próxima: a obra completa da Geographia, de Ptolomeu, novelas de Italo Calvino, estudos críticos sobre Joyce e Saussure, além de dezenas (centenas?) de livros em italiano, francês e inglês sobre a Idade Média. Havia outros volumes encadernados de idade incerta, com visíveis sinais de manuseio.
Il professore é conhecido por ser leitor insaciável – parte daquela biblioteca devia estar arquivada em sua memória, que diziam ser capaz de disparar datas e fatos históricos com incrível precisão. E antes que eu pudesse fazer a primeira pergunta, recomeça a falar, gesticulando para os livros, enquanto acariciava a nova edição em mandarim de O Nome da Rosa:
“- Aqui aprendi o que os escritores sempre souberam: livros sempre falam de outros livros e cada estória conta uma estória que já foi contada antes.”
Lembra que começou estudando semiótica e história medieval. Em 1980, com 45 anos, publica O Nome da Rosa, que alcança sucesso imediato, com 10 milhões de exemplares vendidos. Assim, do dia para a noite, se vê metamorfoseado em estrela literária, procurado por jornalistas, cultivado por intelectuais e apontado como o mais importante escritor italiano vivo. Diz que a fama instantânea não mudou sua vida. Continua a escrever e publica O Pêndulo de Foucault e A Misteriosa Chama da Rainha Loana, mais dois best sellers mundiais.
O homem caminha de um lado para outro da sala, seus passos ecoando no piso de pedra gasto pelo tempo. Se afunda em um sofá, com um charuto Churchill apagado entre os dedos. Comenta casualmente que desenvolveu uma irresistível paixão pela Idade Média, da mesma forma como as pessoas cultivam paixão por refrigerantes. Fala como se estivesse no grande auditório da Universidade de Bolonha, ensinando semiótica, a voz crescendo à medida em que se entusiasma. É difícil acompanhá-lo, pois alterna italiano erudito com citações em inglês e francês de Joyce e Proust.
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Lembra que, quando escreveu O Nome da Rosa, não conhecia o tratado sobre a Comédia da Poética de Aristóteles. No entanto, foi durante o processo de escrever que se defrontou com o episódio do mais célebre livro perdido da Antiguidade. Ele diz que considera O Nome… como um ensaio sobre linguagem, sob a aparência de um romance policial. O tempo passa e um secretário vem avisar que os editores de Milão chegaram para o almoço. Ele se ergue com um resmungo, parecendo entediado.
Me despeço e vou até o Fiat. Il professore embarca em uma Mercedes preta, que dispara pelo caminho que leva ao centro de Urbino. Sopra um vento quente, vindo dos Apeninos.
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Subitamente, ainda estou no meu quarto de hotel em Roma, onde desde cedo aguardo um telefonema da editora Bompiani, para confirmar a entrevista com seu mais famoso escritor. Quando começo a me impacientar, chega uma mensagem do editor Mario Andreose, onde ele lamenta informar que meu entrevistado está em Milão e só virá a Urbino na próxima semana.
Para não perder o dia, sigo pela Via delle Muratte, até a “Trattoria Quirino”, onde peço um Calzone e uma garrafa do melhor Chianti.

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