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Era uma vez…

Ana Kutner e seu pai contracenam pela primeira vez em “Um Navio no Espaço” Sábado passado, 9 da noite, sento diante do computador para …

Ana Kutner e seu pai contracenam pela primeira vez em “Um Navio no Espaço”

Sábado passado, 9 da noite, sento diante do computador para fazer uma revisão literária, gramatical e ortográfica da crônica de hoje e num lance não identificado, o texto sumiu. Usados os recursos conhecidos e até desconhecidos, ele permanece no mundo das trevas. Juntou-se aos aviões desaparecidos no triângulo das Bermudas.

Quando o sentimento de impotência cedeu lugar à razão, joguei o Jogo do Contente da Poliana, lembrando-me da ditadura e da Censura, uma rede com imbecis a serviço da imbecilidade, proibindo livros, peças teatrais, filmes, telenovelas e notícias dos jornais, fazendo desaparecer parte da inteligência do país.

Suspender uma peça teatral às vésperas da estréia, como fez o general Antonio Bandeira, em outubro de 1974, com “Calabar”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, direção de Fernando Peixoto foi, também, crime econômico contra seu produtor, o saudoso Fernando Torres.

Ao contrário da minha perda, não há contentamento algum que substitua o prejuízo à cultura e à informação, além da sangria econômica, resultado dos 20 anos de Censura da última ditadura. O jogo de transformar limão em limonada do meu jogo é lembrar de que não estamos mais no império do arbítrio. Então, eis-me aqui cumprindo o compromisso de preencher este espaço das segundas-feiras.

A crônica desaparecida referia-se a um telefonema de Lisboa do amigo José Monserrat Filho, de um telefonema do jovem jornalista da área cinematográfica do “Globo”, o talentoso Rodrigo Fonseca que, voltando do Recife, onde cobriu o Festival de Cinema de Pernambuco, trouxe-me um   abraço do Rogério Fróes, ganhador do prêmio especial do júri pela sua interpretação em “Não se pode viver sem amor”. Falou-me, também que estivera com Paulo José, que fora da Bahia para lá, promovendo exibições especiais do filme “Quincas Berro D’água” onde ele encarna o personagem criado por Jorge Amado.

Como o telefonema de Lisboa do Monserrat me remetia ao Paulo José, telefonei para ele e Mirian Cavour, a secretária do Pablito, disse-me que ainda estava viajando. Dias depois liguei para o celular dele e fui atendido pela filha, atriz Ana Kutner.

Ambos estão em São Paulo, iniciando curta temporada, no Teatro Sesc Santana, do belíssimo espetáculo “Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César”, sobre a poeta carioca que resolveu antecipar sua saída do nosso convívio.

A minha crônica desaparecida começava com a notícia que dia 21 de maio, entra em cartaz no Espaço Unibanco de Cinema Augusta, o longa-metragem “Solo”, de Ugo Giorgetti, realizado ano passado com o apoio da TV Cultura (SP), um monólogo interpretado por Antonio Abujamra.

O Espaço Unibanco, na paulistana Rua Augusta, mexeu com minhas memórias e usei o e-mail – incluso no convite – de Margarida Oliveira para saber mais sobre aquele cinema. Isso provocou uma boa troca de informações que ocupou boa quantidade dos dígitos desaparecidos.

Na desaparecida havia uma instigante história que aconteceu entre 1550-51, em Valladolid, Espanha, onde houve uma grande discussão: índio tem alma? Prometo para semana que vem.

Como o Jogo do Contente se resume em transformar limão em limonada, veja que maravilhosa compensação encontrei para a crônica desaparecida, ao me lembrar de Drummond e seu longo e belíssimo “Desaparecimento de Luísa Porto”.

Você acaba de ganhar os últimos versos:

Já não interessa a descrição do corpo

nem esta, perdoem, fotografia,

disfarces de realidade mais intensa

e que anúncio algum proverá.

Cessem pesquisas, rádios, calai-vos·

Calma de flores abrindo

no canteiro azul

onde desabrocham seios e uma forma de virgem

intata nos tempos.

E de sentir compreendemos.

Já não adianta procurar

minha querida filha Luísa

que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo

com inúteis pés fixados, enquanto sofro

e sofrendo me solto e me recomponho

e torno a viver e ando,

está inerte

gravada no centro da estrela invisível

Amor.

Inté.

Vitrine sobre a crônica anterior

Linda crônica mano véio. Vc está certo, saudade de mãe dói muiiiiito. (Rogério Fróes, ator, Rio de Janeiro. )

Ao pé da coluna, jornalista, poeta e amiga: Mario – gostei demais de saber do acampamento em Paquetá, dos canivetes e da origem do dia das Mães. Qto à data, pela minha última coluna, ainda aproveito as minhas últimas comemorações com minha mãe. Como sempre, mto bom lê-lo. Abs.( Marcia Fernanda Peçanha Martins – Porto Alegre/RS/Brasil. 04/05/2010)

Autor

Mario de Almeida

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