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Estamos ficando cruéis

Tem alguma coisa muito errada acontecendo com a gente.

E não estou falando apenas da violência. Violência sempre existiu. O que está mudando é outra coisa: a maneira como estamos olhando para ela. A maneira como estamos aceitando a crueldade. A maneira como transformamos a dor do outro em espetáculo.

No Rio de Janeiro, um homem foi espancado durante nove minutos porque alguém decidiu que ele era um ladrão de bicicleta.

Não havia prova. Não havia investigação. Não havia julgamento.

Havia apenas uma acusação! E isso pareceu suficiente para que quatro homens decidissem que tinham o direito de bater em outro ser humano até a morte.

Cláudio Rafael Landeiro Moreira tinha 37 anos. A bicicleta era da irmã. As imagens mostram que ele não reagiu às provocações. Mesmo assim, foi cercado, derrubado, chutado, golpeado com um pedaço de madeira dezenas de vezes, inclusive na cabeça. Ficou desacordado no chão. Os agressores foram embora.

E há uma imagem que, para mim, resume o tamanho da nossa degradação: eles filmaram.

Não bastava matar. Era preciso registrar.

Era preciso transformar a violência em conteúdo. Era preciso mostrar para alguém.

Como se fosse um troféu! 

Como se espancar um homem até a morte fosse alguma espécie de demonstração de força.

Isso deveria nos assustar muito mais do que está assustando. Porque o problema não é apenas que existem pessoas violentas. O problema é que estamos criando uma sociedade em que a violência está deixando de provocar horror.

Estamos ficando cruéis!

Ontem, o Fantástico voltou a tratar da violência contra as mulheres. E uma das coisas que mais me chamou a atenção foi justamente a percepção de que a crueldade dos crimes está aumentando.

Não é apenas matar. É torturar. É humilhar. É perseguir. É desfigurar. É transformar o sofrimento de alguém em espetáculo.

E não acontece apenas com mulheres.

Acontece com crianças. Acontece com pessoas pobres. Acontece com pessoas em situação de rua. Acontece com animais. Acontece com quem é diferente.

Acontece com quem não tem força para reagir. E acontece todos os dias na internet.

É impossível olhar para tudo isso e fingir que são fenômenos isolados.

Existe uma indústria do ódio funcionando. Existe uma economia do ressentimento. 

Existe gente ganhando dinheiro, seguidores, relevância e poder ensinando outras pessoas a odiar.

O homem que diz que mulher feminista é inimiga.

O sujeito que diz que bandido não deve ser preso, deve ser morto.

O influencer que transforma a humilhação de mulheres em entretenimento.

O sujeito que debocha de quem protege animais.

O cara que trata a empatia como fraqueza.

O sujeito que transforma qualquer diferença de opinião em uma guerra.

E existe, sim, uma parte da extrema direita que fez dessa lógica uma ferramenta política.

Não estou dizendo que todo crime é praticado por alguém de extrema direita.

Seria simplista demais e eu não gosto de ser simplista, muito mais com causas assim.

Estou dizendo algo mais grave: existe um ambiente político e cultural em que determinados discursos de ódio são estimulados, relativizados e transformados em identidade.

E quando alguém grita “bandido bom é bandido morto”, estamos muito perto de aceitar que alguém possa decidir, sozinho, quem merece viver.

Quando alguém diz que feminismo é uma ameaça e que mulheres precisam “voltar para o seu lugar”, estamos alimentando uma cultura de hostilidade contra metade da população.

Quando alguém ridiculariza quem protege animais porque considera isso “mimimi”, estamos ensinando que a compaixão é motivo de vergonha.

Quando alguém transforma o diferente em inimigo, estamos destruindo uma das coisas mais básicas de uma sociedade: a capacidade de conviver!

E a internet potencializou tudo isso. Porque o ódio dá engajamento.

A raiva dá clique. A humilhação viraliza. A mentira circula. A crueldade produz audiência.

E nós estamos assistindo a tudo isso quase em tempo real.

O problema é que, enquanto a internet se transforma em território fértil para a disseminação do ódio, o Estado parece chegar sempre atrasado.

E aqui eu não estou falando do Estado do Rio Grande do Sul.

Estou falando do Estado como conceito: Municípios, estados e União.

O Estado existe, entre outras razões fundamentais, para proteger quem não consegue se proteger sozinho.

É por isso que temos polícia. É por isso que temos Justiça. É por isso que temos leis. É por isso que temos políticas públicas.

É por isso que uma sociedade civilizada decidiu, há séculos, que ninguém deveria ter o direito de fazer justiça com as próprias mãos. Só que estamos vendo a ideia do Estado sendo corroída diante dos nossos olhos.

O Estado prende, enquanto a internet solta. O Estado julga, enquanto as redes condenam.

O Estado tenta construir regras, enquanto milhões de pessoas são diariamente treinadas para acreditar que regra é coisa de fraco.

E quando alguém tenta colocar algum limite nessa máquina de ódio, imediatamente aparece o discurso da censura.

“Querem calar a gente.”

NÃO!!

Uma sociedade democrática não precisa proteger o direito de alguém ameaçar, perseguir, humilhar ou incitar violência contra outra pessoa.

Liberdade de expressão não é licença para destruir o outro.

Democracia não é o direito de fazer qualquer coisa sem consequência. E tolerância não significa tolerar a intolerância.

Precisamos parar de ter vergonha de dizer isso.

Porque talvez este seja o momento em que precisamos defender algo que parece banal, mas que está sendo atacado todos os dias: a ideia de que o outro é um ser vivo.

O outro. A mulher. O pobre. O negro. O imigrante. A pessoa com alguma questão especial. A pessoa em situação de rua. O animal. A pessoa que vota diferente. A pessoa que pensa diferente. A pessoa que vive diferente.

O outro não precisa ser como eu para merecer viver!

Essa deveria ser uma frase tão óbvia que não precisasse ser escrita.

Mas precisa. E como precisa!

Porque estamos vendo pessoas serem transformadas em inimigos antes mesmo de serem conhecidas.

Cláudio foi acusado de ser ladrão antes de alguém saber quem ele era.

E morreu por causa disso.

Uma acusação virou sentença. Uma suspeita virou execução. E a execução virou vídeo.

Esse é o tamanho do abismo em que estamos entrando.

A pergunta que precisamos fazer não é apenas por que aqueles homens mataram Cláudio.

A pergunta é: que tipo de sociedade estamos construindo quando quatro homens conseguem acreditar que têm o direito de espancar outro homem até a morte simplesmente porque alguém disse que ele era um ladrão?

E mais: que tipo de sociedade estamos construindo quando alguém filma isso e acredita que aquilo merece ser compartilhado? Que tipo de sociedade estamos construindo quando a dor do outro vira entretenimento? Que tipo de sociedade estamos construindo quando a crueldade começa a ser confundida com coragem?

Eu tenho medo da resposta.

Tenho medo porque a raiva está ficando mais fácil do que a empatia. Porque odiar está ficando mais fácil do que compreender. Porque destruir está ficando mais fácil do que construir.

E porque estamos deixando pessoas muito barulhentas convencerem uma multidão silenciosa de que ser sensível é ser fraco.

Não é!

Fraco é precisar humilhar alguém para se sentir forte. Fraco é precisar destruir o outro para provar alguma coisa. Fraco é precisar de um inimigo para justificar a própria existência. Força é conseguir conviver. 

Força é proteger quem está vulnerável. Força é controlar a própria violência. Força é entender que uma sociedade não existe para que os mais fortes façam o que quiserem.

Existe justamente para impedir que isso aconteça.

O que está em jogo, portanto, é muito maior do que segurança pública, feminicídio, violência contra animais ou discurso de ódio.

O que está em jogo é o tipo de sociedade que queremos ser.

Uma sociedade em que cada um decide quem merece apanhar? Ou uma sociedade em que ninguém tem o direito de tirar do outro aquilo que nenhum de nós concedeu: a própria vida?

Eu ainda acredito na segunda. Mas, infelizmente, ela não está garantida.

E talvez a primeira coisa que precisemos fazer seja parar de achar normal aquilo que nunca poderia ser normal.

Porque uma sociedade começa a morrer muito antes de seus mortos. Ela começa a morrer quando a crueldade deixa de nos chocar.

E eu não quero viver em uma sociedade em que NOVE MINUTOS DE ESPANCAMENTO sejam apenas mais um vídeo na timeline.

Não quero viver em uma sociedade em que o ódio seja conteúdo. Não quero viver em uma sociedade em que matar seja apresentado como solução. Não quero viver em uma sociedade em que a empatia seja motivo de piada.

E, principalmente, não quero descobrir tarde demais que, enquanto estávamos discutindo política, esquerda e direita, liberdade e censura, nós simplesmente esquecemos de defender aquilo que deveria estar acima de tudo isso: A VIDA. E a capacidade de sentir a dor do outro.

Porque quando a gente perde isso, não importa mais quem venceu a discussão.

Neste ponto extremo, onde não podemos chegar: Todo mundo perdeu.

Autor

Fernando Puhlmann

Sócio-cofundador da Cuentos y Circo, Puhlmann é um dos principais especialistas em YouTube do país, com um olhar focado em possibilidades de faturamento na plataforma e uma larga experiência em relacionamento com grandes marcas do mercado de entretenimento. Além de diretor de Novos Negócios da CyC, tem também no seu currículo vários canais no país, entre eles o do escritor Augusto Cury, do Gov Eduardo Leite, Natália Beauty e do Grêmio FBPA, sempre atuando como responsável pela estratégia de crescimento orgânico dos canais. Já realizou palestras sobre a nova Comunicação juntamente com diretores do YouTube Brasil como a abertura do 28º SET Universitário da Famecos-PUCRS, o YouPIX/SP e o Workshop YouTube Gaming Porto Alegre. Desde 2013, Puhlmann ministra cursos, seminários e oficinas sobre YouTube, tendo mentorado mais de 30 canais nos últimos anos.
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