Os dias deste inverno de 2014 em Porto Alegre estão muito prolongados. Eles se arrastam. Parece que não têm fim. Assumem uma extensão desanimadora. São horas e horas em excesso para se sentir frio, se molhar na chuva, ver as roupas no varal nunca secarem, a umidade escorrendo pelas paredes das casas e apartamentos e as pessoas se trancafiando nos seus lares. Quem me lê com mais frequência (sim, morram de inveja, eu tenho alguns leitores), já percebeu esta minha animosidade com o inverno, retratada em outras colunas. Bem que eu tento ser mais simpática com a estação fria, mas sempre tem algo que impede um sentimento mais meigo.
O Dalai, meu neto shih tzu canino, também se ressente destes dias e noites mais frias. É comum ver o cachorro com os olhos apertadinhos de tanto que dormiu durante o dia. É habitual vê-lo espreguiçando as patas gordinhas para espantar o desleixo quando volto para a casa depois de um dia extenso de trabalho neste inverno rigoroso. E mais do que o normal, o cusco Dalai encosta-se nos cantos do sofá, da poltrona, do pufe para relaxar e afugentar o frio.
As temperaturas baixas me obrigam a um estado de entorpecimento, a uma hibernação constante, inclusive nos finais de semana em que não trabalho. E, assim como os animais, preciso de uma preparação prévia para a hibernação. É necessário fazer um estoque de alimentos de manutenção e de energia para aguentar os dias e as noites geladas. Para o meu período de dormência, porque o frio é o melhor convite para o ócio contemplativo e o lazer caseiro, escolho a roupa de cama mais cheirosa, o edredom mais fofo, perfumo o quarto, acendo incensos na casa. E, nas noites sem nenhum programa (porque eles somem no inverno), um bom vinho tinto e uma música são itens que não podem faltar.
E como os dias e as noites são mais extensos, o calendário parece que ganha folhas a mais. Os meses do inverno têm mais do que 30 ou 31 dias. Os dias têm mais do que 24 horas. E tais horas invernosas apresentam mais do 60 minutos. E os minutos da estação fria são intermináveis.
Quando começam os primeiros sinais de inverno, eu já começo a pensar quantos dias faltam para começar a florida e sorridente primavera ou até quando tempo ainda será necessário para o nosso infernal verão invadir a nossa rotina. Sei lá. Mas ouso dizer que o frio está afetando até a minha criatividade e podando a minha inspiração. Tomara que os leitores me acompanhem, nestas colunas geladas, até a primavera.

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