Em tempos de renascimento da vida, depois de longo período internada no hospital para resolver questões de saúde, de uma fé até então desconhecida na bondade do ser humano e de um apoio indispensável da família, retomo, aos poucos a minha rotina. Sem exageros. Sem compromissos muito pesados. Sem congestionar a agenda com reuniões virtuais. Sem noites mal dormidas e dias tumultuados. E assim, neste pequeno retiro que faço aqui em Butiá, na casa do meu irmão, tive um Dia das Crianças completamente lúdico, afetuoso, na companhia do afilhado menor e com saudades da filha que está em Porto Alegre.
Neste clima bucólico de cidade pequena, e nem tão longe assim da capital, o final de semana foi cercado de crianças de diferentes faixas etárias que convivem com o Lucas, o afilhado menor. E é tão maravilhoso receber o afeto despretensioso dos pequenos e das pequenas. Que pedem apenas e nada além disso, uns minutos de atenção. Sentar no chão para modelar alguns “bichinhos” (mesmo que eu não tenha a menor habilidade com a brincadeira) com o menino que, confuso com a nova agregada daquele núcleo me chamou de vovó, faz tudo ter um novo sentido.
Esse cenário de casa no campo onde eu fico no tamanho da paz e tenho somente a certeza dos limites do corpo e nada mais, magistralmente descrito na música “Casa no Campo”, do Zé Rodrix e do Tavito, consagrada em 1972 na voz da Elis Regina, estendeu-se nesta terça-feira, 12 de outubro, que é o Dia das Crianças. E desde já agradeço a Nossa Senhora da Boa Memória, ao Santo Protetor dos Amantes da MPB, São Francisquinho e ao tio Google, por não me permitirem errar o nome de composição tão importante, chamando-a, por exemplo, de “Esperança de Óculos”, e nem creditar a autoria à Elisquecível (*).
Foi um dia maravilhoso em que fiquei apenas com a pureza da resposta das crianças e vi, assim como já disse Gonzaguinha, que a vida é bonita, é bonita, principalmente para quem não tem a vergonha de ser feliz. Como considero muito importante oferecer as informações corretas, parte deste trecho está na música “O que é, o que é”, de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, que teria hoje 76 anos, se não tivesse falecido em 29 de abril de 1991, aos 45 anos. E Gonzaguinha afirmava que a vida é viver, e que é preciso cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.
Quero continuar acreditando – assim como Gonzaguinha – na pureza da resposta das crianças e que somos nós que fazemos a vida como der, ou puder ou quiser, sempre desejada. E o que mais posso, de fato, em 2021, neste segundo ano atípico de pandemia da Covid-19, em que muitas crianças no mundo ficaram órfãs ao perderem parentes mortos pelo coronavírus, é desejar que um dia, ainda que muito distante, o mundo seja sorridente e igualitário para todos e todas pequenos e pequenas e que a ternura seja abundante e independa de classe social.
(*) Na GZH de domingo, matéria sobre o show da Maria Rita em Porto Alegre, publicada às 9:11 (o primeiro que não vi da maravilhosa cantora desde novembro de 2003, quando ela fez sua estreia na capital gaúcha no Teatro do SESI), quem fez a cobertura disse que o show de duas horas incluía sons (???) como “Caía a tarde feito um viaduto”, de Elis. Se alguém desconhece a música “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, que se tornou um hino informal sobre a anistia, mesmo sendo composta antes da Lei da Anistia, em 1979, podia ter olhado no Google, pedido ajuda aos universitários ou rezado para um revisor ou editor perceber tal erro.


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