Não fechou um mês exato de férias. Talvez uns 19 dias se o final de semana não entrar na contabilidade. Alguns com uma chuva de praguejar todos os santos. Outros com um sol de agradecer Nosso Senhor do Bom Fim e jurar subir as escadas da Igreja das Dores de joelhos. E umas noites de luas convidativas a sentar na beira da praia, como se o tempo não existisse além daquele momento, e ficar ali, tomando cervejas, batidas, ob-observando hipócritas, disfarçados, rondando ao redor. E não chorar nunca mais. Mas fevereiro chegou ao final, os compromissos começam a fazer fila, o Imposto de Renda já preocupa, a dieta chama. E o que era doce se acabou.
Por isso, encare aquele vizinho antipático com a esperança de que um dia ele se tornará pelo menos mais sociável e lhe concederá um bom dia. Tomada de coragem, vá até o supermercado e faça um belo estoque para iniciar aquela dieta milagrosa. Fuja daí: adeus gôndolas dos doces e guloseimas. Pegue aqueles seis livros que ocuparam espaço na mala das suas férias e priorize a ordem de leitura. Nada de devolvê-los a sua estante para outro período de lazer. Sua grande amiga da Poemas à Flor da Pele, Soninha Porto, faz aniversário no dia 2 de março. Empacote imediatamente aquelas desculpas de todos os anos e aceite o chopinho no final da tarde com a aniversariante.
O retorno das férias nada mais é do que voltar a administrar os compromissos que já existiam antes. Trabalhar. Rever amigos. Ir ao cinema. Refazer o guarda-roupa. Pagar contas. Escutar música. Ler. Descansar. Fazer, em alguma ocasião, um corpo mole. Planejar os finais de semana em Butiá para acompanhar cada novo milímetro do desenvolvimento do meu afilhado, Lucas, de um ano, que agora já ensaia uns passos só, abraça muito esta dinda que vos escreve e que é chamada pelo pimpolho de “Dê”. E amar de novo. Com muita intensidade. A mim e a todos, até aqueles incapazes de amar.
Como estou com o fôlego renovado e com mais disposição, optei por uma coluna leve, sem tanto sofrimento. Muitos, e com mais propriedade, devem ter feito comentários críticos sobre uma série de mudanças ocorridas em um grande jornal aqui do Sul. Tantos já devem ter amaldiçoado o cachorro que matou a criança em Capão da Canoa. Ou comentado o caso do Jet ski, do parque de diversões e outras mazelas destes dois meses de 2012. Também não vou ficar procurando um gaúcho para cada uma das notícias citadas acima. O grande jornal o fará. Vou poupá-los de tanto azedume.
O que importa é que eu voltei. Agora para ficar. E nada é mais emocionante e nos dá a dimensão do amor do que a recepção canina ao nosso retorno. Depois de uns 12 dias de ausência do shih tzu bipolar Dalai, devidamente acomodado em um hotel de bom nível com seus amiguinhos lá no Refúgio, o cachorro não cansa de demonstrar seu amor e sua fidelidade. Agora, na madrugada de quarta-feira, enquanto digito a coluna, Dalai repousa sossegadamente seu focinho nos meus pés e aguarda o término da minha tarefa. Momento em que irá dormir na porta do meu quarto, zelando pelo meu sono.

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