Tente ser um pouco mais humano nesta Páscoa e perceba as pequenas injustiças do nosso mundo com mais compaixão, mesmo que não nos seja possível resolver todos os problemas da terra. Não ignore as pessoas sem futuro que você vê todo dia na mesma esquina no caminho do seu trabalho ou em algum trajeto frequente. Entregue aos desacomodados nas ruas, um pouco de carinho através de um naco de alimento, um agasalho porque o frio vai começar, quem sabe até uma barra de chocolate. Semeie em pequenas atitudes de solidariedade e caridade, motivos para celebrar estes três dias de feriado.
Mesmo que você não seja um católico entusiasmado e efusivo, permita-se singelos atos de ressurreição nesta Páscoa. Deixe renascer a ternura que você viu esmorecer nas agruras da vida nada fácil e descubra-se, novamente, um adulto mais delicado, doce, afetuoso e zeloso. Volte a encontrar beleza nas cores do outono, que recém apresenta seus sinais, no perfume da chuva na grama dos parques, nas folhas que se despedem se suas árvores. Deslumbre-se com gestos simples como os primeiros passos de uma criança, o sorriso de um desconhecido na rua e o reencontro com uma amiga.
Nesta Páscoa, desempenhe mais a piedade e o perdão. Faça do ato de desculpar quase um exercício de fé. Então, não fique tão amargurado com aquele amigo que sempre promete aparecer para um chope ou vinho e invariavelmente arruma uma desculpa para faltar. Desculpe. Não amaldiçoe os estudantes bem abençoados, mas sem coração de uma universidade de Santa Maria que teriam estuprado uma cachorra (sim, uma cadela sem raça definida, ou na linguagem popular, uma vira-lata que não fazia mal a ninguém) na saída de uma festa recente. Simplesmente perdoe. Apenas porque é Páscoa e precisamos ser mais condescendentes com pessoas estúpidas, insensíveis e boçais.
E se os próximos dias devem ser repletos de sentimentos plenos de renovação, compreensão, caridade e amor, que sejamos todos mais complacentes com os próximos e os distantes. Com aqueles que têm poder de decidir, mesmo que não tenham sido escolhidos por você, com aqueles que têm poder de deformar nos meios de comunicação social e com aqueles idiotas que repassam tudo que aparece nas redes sociais. Perdoe aquele deputado que é homofóbico, mal intencionado ou um completo imbecil. Ignore aquele sem noção do face book que compartilha tudo sem ler, inclusive notícias falsas e do século passado. E, por favor, não leia mais a coluna daquele preconceituoso, discriminatório e intolerante que vive lá em Boston.
Faça uma Páscoa diferente e única. Reviva no seu coração as pegadas de talco imitando as patas do coelhinho que você um dia fez para enganar a sua filha que ele trazia as guloseimas da Páscoa. Recorde, como se o cheiro viesse novamente e insistentemente da cozinha neste exato momento, o aroma dos bolinhos de bacalhau que sua mãe fazia para encantar os familiares na Sexta Feira Santa. Renasça mais uma vez criança e acredite que tudo sempre será melhor, que a maldade é passageira, que os dias serão menos pesados e que o ser humano tem, ainda, alguma salvação. Faça uma Páscoa diferente e única e celebre a ressurreição e libertação da vida de todos.

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