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Falsa modéstia

A buzina escancara. A praga rogada não funcionou. Era pra eles perderem na quarta-feira e, depois, no domingo. A derrota em casa seria a …

A buzina escancara. A praga rogada não funcionou. Era pra eles perderem na quarta-feira e, depois, no domingo. A derrota em casa seria a cereja do bolo. A tal garra vermelha deu cinco tiros e restou em pé.

Fu Lana espumava. Contra o esporte e contra tudo. Ela mistura as coisas. Pensava: é ruim ser perdedor, ser pequeno, ser incompetente. Ela e metade do Estado pensavam assim, naquela noite. Administrar melhor deve ser a solução, precisamos planejar a vitória. Mesmo porque ninguém planeja uma derrota, apesar de desejar fervorosamente a do concorrente.

Outro dia, enfrentou uma entrevista onde concorria com outras duas empresas. Os portfólios batiam, os preços, idem. O que decidiria seria aquele interminável bate-papo com o pessoal do marketing. A pergunta fulminou: quem é a tua empresa? Ela não soube convencer. Fu Lana misturou valores, missões e objetivos. Perdeu.

Sendo assim, foi aprender a língua dos quatro pês (ou seriam oito?). Na primeira aula de um turno de oito horas, em pleno sábado, ouviu: “Sou de direita; se fosse americano votava em republicano; o socialismo só é bom para os outros”. Beleza. Daquela vez, ou aprendia ou desenvolveria uma úlcera.

Depois de algumas barreiras de entrada, algumas FOFAs depois, descobriu que sua empresa, aos olhos do mercado, seria classificada, no mínimo, como indigente. Cortaria os pulsos? Tomaria 75 barbitúricos em busca do sono final? Nada disso. Dormiria mal e descobriria valores, missão e visão. Fu Lana, hoje, parece ainda mais maluca: busca dimensionar forças, oportunidades, fragilidades e ameaças. Só pensa em definir o negócio. Em caso de derrota, está preparada para fazer a faxina e tocar prá frente. De novo e de novo. Play it again, Sam.

Conhecer, mas nunca desistir. Ela até já anda espalhando: se fosse americana, votaria nos democratas por falta de opção; acredita no ambientalismo e na esperança de o mundo voltar a ficar azul; acredita na esquerda democrática, nada bélica, honesta e humanitária. Romântica, sempre.

As buzinas não descansam. Eles tinham de fazer cinco?

***

Acontece com quem tem auto-crítica. O cara não escreve prá não dar bola fora. Vai daí que sempre aparece um que põe a lenha e o texto sai. Ninguém lê, mas se alguém comenta, o autor já dá uma subidinha nas sandálias. Algum comentário a mais, já passa para as tamancas e, a partir daí, já começa a emitir opinião em público. No início, timidamente, em rodas de conhecidos. Um ou dois comentários de quem passou os olhos nas linhas há mais de um ano, e o cara já está sobre as plataformas de Carmem Miranda. Se foi a modéstia. Já se alia aos colegas donos da verdade e o comentário sai com força de lei.

Nessa fase, ele passa a integrar a chamada Espiral do Silêncio: quando os formadores de opinião unem-se em um mutismo, para defender exatamente aquilo sobre o qual eles não falam. Se funcionou para levantar a Alemanha no pós-guerra, por que não seria útil para eleger um prefeito, implantar uma papeleira ou encobrir fraudes terríveis? Essa espiral bem poderia terminar no ralo… 

Autor

Clo Barcellos

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