“Uma boa refeição deve começar com fome.”
(Provérbio marselhês)
Deve ter sido lá por 1978 ou 1979. Eu era um turista de primeira viagem e flanava pelo Le Vieux Port, em Marselha, sem saber exatamente o que estava fazendo por ali. Naquela época, a região do porto não era recomendada aos turistas, por abrigar os chefões da máfia francesa. Ao mesmo tempo, se comentava que ali era o lugar certo para se saborear a verdadeira cozinha mediterrânea.
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Era quase meio-dia e eu estava faminto. Havia chegado no trem de Paris e não tivera tempo de um petit déjeuner decente. Subi ladeiras, andei pelas ruas estreitas, até achar o número 15 do Quai de Rive Neuve. Amigos, com boas mesas no currículo, me haviam garantido que ali, no Bar de La Marine, se serve a melhor bouillabaisse de Marselha. Mas minhas expectativas de uma refeição digna do Guide Michelin não duraram muito. O menu à porta era bem específico – a clássica bouillabaisse é servida apenas em sopeiras, para serem partagée par deux ou trois personnes.
Um problema – eu estava com fome, mas sozinho. E aqueles três algarismos do festim de frutos do mar eram demais para meu orçamento de fim de viagem.
Estava quase desanimando, quando notei uma senhora de cabelos e avental branco me observando pela janela. Ela devia ter notado meu desalento ao ver os preços do cardápio. Mas senti o perfume que saía pela porta, tomei coragem e entrei no Bar de La Marine. Era cedo e os fregueses, poucos. Escolhi uma mesa a um canto e voltei a estudar o menu du jour, que exibia duas reluzentes estrelas na capa. Percorri a lista de tentadores pratos de peixes, crustáceos, lagostins, lulas, ostras, ouriços e enguias. E pulava para o prato seguinte, à medida em que lia os preços do lado direito.
A um canto do balcão, a madame de cabelos e avental brancos continuava a me observar. Por um breve instante, julguei ver um ar divertido em seu rosto. Foi quando ela se aproximou da mesa, me brindando com um dos sorrisos mais amistosos que recebi em toda a França. Ouviu em silêncio, enquanto eu dizia que estava com pouca fome, etc. e que gostaria apenas de um petit repas – um pouco de pão, óleo virgem, azeitonas e uma demi carafe do vin blanc da casa. Ela anotou o pedido e desapareceu pela porta da cozinha.
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A demi carafe chegou em minutos, junto a uma cesta de pães, com baguettes, pain de campagne e pain bagnat – a parceria perfeita para uma bouillabaisse. Comecei a ficar assustado, pois mais duas travessas chegaram à mesa com ciboulettes, azeitonas, alcachofras e coloridos pimentões marinados em azeite e alho.
Mas o susto de verdade veio em seguida, quando a senhora de cabelos e avental brancos chega com uma grande e fumegante sopeira, que depositou à minha frente. Espiei lá dentro e parecia que todo o Sul da França estava lá: tomates, cebolas, açafrão, alho, erva-doce, mais uma bela reunião de mariscos, polvo, congrio, tamboril, rascasse, rouget grondin e ouriços do mar. Tudo devidamente perfumado por maços de bouquet-garni.
Entre surpreso e assustado, olhei para Madame e resmungo algo parecido como:
“- Não pedi isso…é mais do que posso pagar.”
Ela simplesmente deu de ombros. Esfregou as mãos no avental e, com um sorriso de satisfação, que nunca mais esqueci, diz:
“Bon, c’est de ma faute. Mangez bien!”.

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