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Faz parte

      A indústria de celebridades, cada vez mais comprometida com a quantidade e menos com a qualidade, além de confirmar o presságio de Andy Warhol …

      A indústria de celebridades, cada vez mais comprometida com a quantidade e menos com a qualidade, além de confirmar o presságio de Andy Warhol de que um dia todos seriam famosos por 15 minutos, já não exige do aspirante a astro qualquer inabilidade em especial. Não é necessário ser mau cantor ou péssimo ator, por exemplo. Basta prender a audiência por alguns minutos e já será candidato à capa da próxima Caras. Fiquei imaginando um diálogo entre os gêmeos Gustavo e Flávio, Luiza Ambiel, Carola, Manuela e Thyrso, Cléber Bam-bam e outros ex-integrantes de reality-shows. Como todos temos nossas fraquezas, deixo de fora a patricinha Mariana Kupfer (foto), que é uma gracinha. Além do mais, nascemos no mesmo dia, 10 de junho, e precisa haver solidariedade entre irmãos zodiacais.

– Você faz o quê? – pergunta Luiza.

– Sou gêmeo. – responde Gustavo.

– Eu também. – completa Flávio.

– Pois eu tenho seis anos de banheira. – gaba-se Luiza. E você? – questiona, olhando para Carola.

– Sou uma legítima ex. – diz Carola.

– Grande coisa. Eu sou a namorada. – interrompe Manuela, a Manu.

– E eu o namorado. – jacta-se Thyrso.

Todos olham na direção de Cléber.

– Eu sei dizer “faz parte”. – esclarece o rapaz.

      A justificativa para tal cenário é tão calhorda que chega a soar verossímil. Eles dão audiência. É claro que dão. Apelação sexual, morte e destruição também dão. Cultura e entretenimento de qualidade igualmente dariam, se tivessem sido eleitos pela mídia como o padrão a ser perseguido. A ladainha de que o Brasil é um país inculto e só merece mesmo isso é tão perversa e cínica quanto dizer que uma pessoa que passa fome tem de se alimentar de restos ou de farinha com água porque recusaria um prato de sabor mais sofisticado. O baixo nível ajuda a compor um quadro de dominação cultural que, por sua vez, é parte integrante e não pode ser vendida separadamente da exploração econômica.

      Já não se perde a cabeça por sugerir a distribuição de brioches ao povo famélico, mas a visão de muitos continua a mesma. Pobre é pobre porque quer, porque é vagabundo ou porque precisa sofrer para ganhar o reino dos céus. Se receber comida de qualidade ou cultura de nível não saberá apreciar, será um desperdício, e não podemos promover desperdícios em um país com tantos pobres. Assim o círculo se fecha ad eternum. Como machistas ao se referirem às mulheres, a mídia pode dizer que dá o que o povo quer.

Dedicado a Mamá Kupfer

([email protected])

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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