Ele observava um bando de pássaros peregrinos voando para o Norte quando, de repente, sem mais nem menos, percebeu que estava ficando velho. Mas isso não o abateu nem o deixou triste, mas lhe dava a sensação de que se tornava a pessoa que sempre quisera ser. Sentia-se abençoado por ter vivido o tempo suficiente para ter cabelos brancos e sentir na face os sulcos das gargalhadas que dera na juventude.
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Os pássaros desapareceram e ele continuou olhando o sol se pôr, as águas passando do dourado ao vermelho e escurecendo de vez. Mais um dia que passava por sua vida. E haviam sido muitos… Recentemente, se surpreendia na frente do espelho, acariciando as bolsas sob os olhos, as rugas ao redor da boca e os poucos cabelos pretos que ainda lhe restavam. E, se intrigava, com a imagem de alguém mais velho do que ele, o olhando do espelho. Mas, com um suspiro resignado, reconhecia seu melhor amigo na imagem ao espelho, um ser humano que ele conhecia melhor do que ninguém.
Como ele se tornara a pessoa que era hoje? Os amigos de uma vida inteira não estavam por perto para responder. Precisava decidir o que fazer com o resto de sua vida. Claro, descartar o desimportante e guardar lições aprendidas. Quanto às cicatrizes, sabia que corações machucados ficam mais fortes e aprendem a ter compaixão. Passara o tempo em que se julgava capaz de superar tudo e vencer a todos. Até que conheceu a alegria de ser imperfeito.
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Naquela tarde, à medida em que o sol desaparecia, percebeu que já estava avaliando sua vida. Ele gostava de pensar em si mesmo como um guardador de rebanhos. Feito de emoções e alegrias, sem lugar para arrependimentos nem remorsos. Como aquelas águas, que mudavam de cor, do alaranjado para o vermelho e para o roxo, preparando-se para a noite que chegava.
Ele conquistara o direito de estar errado. E agora saboreava, pela primeira vez, a sensação de ser uma pessoa melhor – exatamente aquela que sempre gostaría de ter sido.
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No caminho de volta para casa, sem motivo aparente, lembrou-se de um payador que conhecera nas antigas festas dos Reis Magos. O cantador gostava de contar a estória do peregrino que indagava de um velho monge sobre quanto tempo era preciso para dominar seu lado mau.
O monge sentenciou:
“- Se você for duro consigo mesmo, uns cinco anos”.
O jovem fez outra pergunta:
“- Mas, se eu for duas vezes mais duro?”.
Ao que o velho monge respondeu:
“- Neste caso, levará uns dez anos”.
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