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Ficando Velho

Ele observava um bando de pássaros peregrinos voando para o Norte quando, de repente, sem mais nem menos, percebeu que estava ficando velho. Mas …

Ele observava um bando de pássaros peregrinos voando para o Norte quando, de repente, sem mais nem menos, percebeu que estava ficando velho. Mas isso não o abateu nem o deixou triste, mas lhe dava a sensação de que se tornava a pessoa que sempre quisera ser. Sentia-se abençoado por ter vivido o tempo suficiente para ter cabelos brancos e sentir na face os sulcos das gargalhadas que dera na juventude.

***

Os pássaros desapareceram e ele continuou olhando o sol se pôr, as águas passando do dourado ao vermelho e escurecendo de vez. Mais um dia que passava por sua vida. E haviam sido muitos…  Recentemente, se surpreendia na frente do espelho, acariciando as bolsas sob os olhos, as rugas ao redor da boca e os poucos cabelos pretos que ainda lhe restavam. E, se intrigava, com a imagem de alguém mais velho do que ele, o olhando do espelho. Mas, com       um suspiro resignado, reconhecia seu melhor amigo na imagem   ao espelho, um ser humano que ele conhecia melhor do que ninguém.

Como ele se tornara a pessoa que era hoje? Os amigos de uma vida inteira não estavam por perto para responder. Precisava decidir o que fazer com o resto de sua vida. Claro, descartar o desimportante e guardar lições aprendidas. Quanto às cicatrizes, sabia que corações machucados ficam mais fortes e aprendem a ter compaixão. Passara o tempo em que se julgava capaz de superar tudo e vencer a todos. Até que conheceu a alegria de ser imperfeito.

***

Naquela tarde, à medida em que o sol desaparecia, percebeu que já estava avaliando sua vida. Ele gostava de pensar em si mesmo como    um guardador de rebanhos. Feito de emoções e alegrias, sem lugar para arrependimentos nem remorsos. Como aquelas águas, que mudavam de cor, do alaranjado para o vermelho e para o roxo, preparando-se para a noite que chegava.

Ele conquistara o direito de estar errado. E agora saboreava, pela primeira vez, a sensação de ser uma pessoa melhor – exatamente aquela que sempre gostaría de ter sido.

***

No caminho de volta para casa, sem motivo aparente, lembrou-se de um payador que conhecera nas antigas festas dos Reis Magos. O cantador gostava de contar a estória do peregrino que indagava de um velho monge sobre quanto tempo era preciso para dominar seu lado mau.

O monge sentenciou:

“- Se você for duro consigo mesmo, uns cinco anos”.

O jovem fez outra pergunta:

“- Mas, se eu for duas vezes mais duro?”.

Ao que o velho monge respondeu:

“- Neste caso, levará uns dez anos”.           

*** 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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