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Filtro na vida real

Tem ferida que a gente não trata. A gente administra. Coloca um curativo por cima, ajeita a roupa para ninguém perceber, ocupa a cabeça, enche a agenda, inventa compromissos, responde “tá tudo bem” antes mesmo que alguém termine de perguntar. E segue. Porque olhar para uma ferida dá trabalho. Cutucar, então, parece quase uma crueldade. Dói. Às vezes sangra de novo. Às vezes faz a gente descobrir que aquilo que parecia cicatrizado estava apenas escondido.

Mas eu tenho pensado que existe uma coragem muito particular em ser vulnerável. Não essa vulnerabilidade performática, feita para ser vista, curtida ou aplaudida. Falo daquela que acontece quando a gente consegue admitir em um desabafo, primeiro para si e depois, talvez, para alguém: isso aqui ainda dói. Porque só quando a gente encontra a dor é que consegue entender de onde ela vem. E só entendendo de onde ela vem é que pode descobrir o que fazer com ela.

Não estou dizendo que precisamos passar a vida investigando nossas próprias tristezas. Tem uma hora em que viver também é deixar algumas coisas quietas. O problema é quando deixar quieto vira fingir que não existe. É aí que começa a coleção de band-aids. Um em cima do outro. Uma relação nova em cima de uma rejeição antiga, uma conquista em cima de uma insegurança, uma piada em cima de um medo, um “não ligo” em cima de alguma coisa para a qual a gente liga. Funciona por algum tempo. Até que a conta chega.

Por isso vulnerabilidade exige coragem. Porque ser vulnerável não é simplesmente contar seus traumas para qualquer pessoa. Não é transformar intimidade em praça pública nem entregar as chaves da casa para quem acabou de tocar a campainha. Vulnerabilidade também é critério. É abrir uma fresta, depois outra. É observar quem fica quando conhece uma parte menos bonita da nossa história. Quem não usa nossas fragilidades contra. Quem sabe segurar aquilo que contamos sem transformar em fofoca, conselho não solicitado ou munição para uma briga futura. É aos poucos. Para quem merece. Mas é. e

Existe um risco enorme em passar pela vida inteira sendo conhecido apenas pela nossa versão editada. Aquela que funciona, resolve, dá conta, faz rir, responde rápido, parece forte. Essa versão pode até ser admirada por muita gente, mas talvez nunca seja verdadeiramente abraçada. E existe uma diferença enorme entre ser admirado e ser acolhido. Os vínculos mais bonitos que construímos raramente nascem das nossas certezas. Muitas vezes, eles começam no instante em que alguém encontra coragem para dizer “eu tenho medo disso” e escuta do outro, de alguma forma, “eu também”. Duas pessoas que, cinco minutos antes, tentavam parecer inteiras descobrem que podem ser humanas juntas. Talvez seja isso que a vulnerabilidade faça: ela permite que a gente seja reconhecido para além daquilo que aprendeu a mostrar.

Claro que nem todo mundo merece acesso ao nosso interior. Há pessoas que precisam permanecer na sala de espera da nossa vida. Algumas, inclusive, do lado de fora do prédio. Mas não transforme proteção em isolamento. Não confunda força com silêncio. Não faça da sua independência uma desculpa para nunca precisar de ninguém. Porque há uma solidão muito específica em ser cercado de pessoas e, ainda assim, sentir que ninguém conhece você de verdade.

Talvez a gente precise começar pequeno. Dizer que sentiu falta. Admitir que teve medo. Contar que aquilo atingiu mais do que gostaria. Pedir colo sem transformar o pedido em piada. Dizer “não estou bem” sem correr para completar a frase com “mas vai passar”. Dar um pouco do nosso interior para o outro também. Não tudo. Não de uma vez. Não para qualquer um. Mas alguma coisa. Porque, quando a gente se permite ser vulnerável diante de quem merece, acontece uma coisa bonita: o outro também entende que não precisa estar inteiro o tempo todo. A nossa coragem de mostrar uma ferida pode fazer alguém sentir segurança para mostrar a sua. E talvez seja justamente aí que os vínculos deixem de ser encontros entre personagens e passem a ser encontros entre pessoas.

Então tire um band-aid. Só um. Talvez doa quando o ar tocar a ferida. Talvez você descubra que ela ainda está mais aberta do que imaginava. Mas pelo menos agora você consegue enxergá-la. E aquilo que pode ser visto pode ser compreendido, cuidado, tratado. Ferida escondida não cicatriza só porque ninguém está olhando para ela. No fim, talvez vulnerabilidade seja isso: a coragem de não passar a vida inteira escondendo de nós mesmos aquilo que gostaríamos que alguém tivesse coragem de acolher. Aos poucos, com cuidado e para quem merece. Mas deixando que alguém entre. Algumas partes nossas só descobrem que podem ser amadas quando finalmente permitimos que sejam vistas.

Com Amor, Luan

Autor

Luan Pires

Luan Nascimento Pires é jornalista e pós-graduado em Comunicação Digital. Tem especialização em diversidade e inclusão, escrita criativa e antropologia digital, bem como em estratégia, estudos geracionais e comportamentos do consumidor. Trabalha com planejamento estratégico e pesquisa em Publicidade e Endomarketing, atuando com marcas como Unimed, Sicredi, Corsan, Coca-Cola, Auxiliadora Predial, Deezer, Feira do Livro, Museu do Festival de Cinema em Gramado, entre outras. Articulista e responsável pelo espaço de diversidade e inclusão na Coletiva.net, com projetos de grupos inclusivos em agências e ações afirmativas no mercado de Comunicação. E-mail para contato: [email protected]
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