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Tertuliano, frívolo peralta, Que foi um paspalhão desde fedelho, Tipo incapaz de ouvir um bom conselho, Tipo que, morto, não faria falta; Lá um …

Tertuliano, frívolo peralta,

Que foi um paspalhão desde fedelho,

Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,

Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta,

E, indo à casa do pai, honrado velho,

A sós na sala, diante de um espelho,

À própria imagem disse em voz bem alta:

– Tertuliano, és um rapaz formoso!

És simpático, és rico, és talentoso!

Que mais no mundo se te faz preciso? –

Penetrando na sala, o pai sisudo,

Que por trás da cortina ouvira tudo,

Severamente respondeu: – Juízo. –

(Velha Anedota – Artur Azevedo)

Coisas que já saíram aqui e outras que não, agora em pílulas.

Até 1990, a imprensa inventou que uma década terminava um ano antes, ou seja, que aquele seria o primeiro ano da década de 90 e não o de 91.

Como em 2000 não dava para afirmar ser aquele o primeiro ano do século 21, jogaram a toalha e caíram na real, indiretamente confessando que Cristo nasceu no Ano I no calendário gregoriano e não no Zero.

Eu já me vingara dessa falácia permanente, 10 anos antes, pois às vésperas do Ano Novo enviei aos amigos uma folha em branco com o seguinte rodapé: “Escreva aí tudo que você quer que aconteça ainda na década de 80. E vá em frente, pois esta década só acaba mesmo no fim do ano que vem. Feliz 1990.”

*

Em 1969, plantei uma arapuca para a Esso ser obrigada a comprar uma cota de patrocínio da primeira transmissão de TV da Copa do Mundo de futebol, em 1970, coisa que não interessaria a Shell, cujas propaganda e promoções eu chefiava na Standard Propaganda. Preparei uma campanha para o 2º semestre de 1969 com a venda de um adesivo nos postos com a renda líquida em benefício da Seleção.

Tudo aprovado em casa do banqueiro Walter Moreira Sales, que presidia a campanha pró-fundos e com João Havellange, então presidente da CBD – a atual CBF é do final de 1970 – e eu precisava de uma carta dele para iniciar a campanha e a impressão do adesivo criado pelo craque Aloísio Magalhães e que seria vendido nos postos Shell.

Sempre que eu ligava para a secretária do Havellange, ele “estava” em outro país. Como ambos caminhávamos pela praia, pela manhã, e ele é bem alto, eu o via no sentido contrário, o que me obrigava a atravessar a avenida para ele não saber que eu sabia da mentira.

No domingo, 31 de agosto de 1969, com um gol do Pelé, o Brasil venceu o Paraguai no Maracanã e se classificou para a Copa. Manhã seguinte, início de expediente, a secretária da CBD me telefonou para que eu apanhasse a carta. Só então saquei que a autorização, pronta e assinada, estava retida até a classificação do Brasil.

A venda dos adesivos ultrapassou a casa do milhão e a gente esvaziou os cofres da Esso no segundo semestre, quando acontecia o pique de vendas de combustíveis e óleo. E o adesivo circulava pelo Brasil todo nos vidros dos veículos e em cadernos escolares.

Quando fui trabalhar na Rede Globo, em 1976, cuja direção conhecia esse “case”, eu já era há muito o “Gordo Sinistro”.

*

Dia 17 passado, em O Globo, Celso Itiberê, que cobre a Fórmula-1, referindo-se ao fato da Renault haver demitido os dois chefões alcaguetados pelo Nelsinho Piquet, expressou sua opinião: “a tentativa da montadora francesa de tirar o dela da reta…”. No caso do Havellange segurar a autorização até o Brasil se classificar é uma prova de que “quem tem, tem medo”.

*

Eu atendia, do Rio, à Construtora Lessa Ribeiro, de Salvador. No texto que criei para um spot de rádio, uma mulher azucrinava o marido com os pontos-de-venda de um lançamento imobiliário. Antes de cada fala, ela chamava o marido pelo nome. Achei que um nome extravagante chamaria mais a atenção e lembrei-me que no Largo do Campo Grande, lá na capital baiana, começa a Rua Leovigildo Filgueiras. Gostaram muito do texto do spot, mas pediram para eu trocar o nome.

– Por quê?

– Leovigildo ó nome do irmão do Zé Lessa.

Fui salvo pela lembrança do endereço do escritório da construtora no Rio. Saiu o Leovigildo e entrou o Anfilófio (Anphilofio de Carvalho).

*

Essa corrupção toda que uniu no Senado Sarney e Collor lembrou-me que, no fim de 1989, Collor eleito presidente e Sarney tendo que ir procurar outras bocas, publiquei num jornal uma charge com o texto: “Dialética é isso, a gente se livra do Sarney mas, em compensação…”

No último mês de governo (sic) do vovô Sarney, a inflação era tão astronômica que se você dormisse com cem cruzados novos na carteira, acordava com 97.

*

Collor presidente, minha irmã Célia telefonou de Ribeirão Preto perguntando se eu lembrava uma poesia antiga, qual o autor e deu-me detalhes. Respondi que só lembrava a existência, não lembrava versos e nem o autor.

Assim como o Sérgio Cabral (pai) é a minha enciclopédia viva para a MPB, Manoel Carlos é em Literatura. Telefonei e ele, sem titubear, disse os 14 versos do Artur Azevedo. Pedi que ele ligasse para o meu telefone, aguardasse a secretária eletrônica e repetisse o soneto, o que foi feito e repassado, depois, para a minha irmã.

O soneto era de tal forma um retrato do Collor que semanas depois, por coincidência, Millôr Fernandes publicou os versos no Jornal do Brasil, certamente de memória, pois os ossos do finado Artur estremeceram de espanto: no JB saiu um verso de pé quebrado.

Inté.

 

Autor

Mario de Almeida

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