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Forma e Ciência

Outro dia, Fu Lana, frente a uma vitrine de livraria, apreciava as capas e os formatos. Surpreendia-se a cada momento e sua alma ficava …

Outro dia, Fu Lana, frente a uma vitrine de livraria, apreciava as capas e os formatos. Surpreendia-se a cada momento e sua alma ficava quentinha, num dia de inverno. Um deles sempre a fazia entrar na loja e perguntar o preço. Às vezes, preferia andar a pegar um ônibus na intenção de guardar moedas, mas ali, era a consumidora de primeiro mundo. Pagou com cartão e antes de efetuar a transação, já estava com as mãos nos pockets, livros em formato bolso. Forma e Ciência. Era tudo de que ela precisava. Saber que Sócrates acreditava que os poetas compõem por inspiração, que dependem de possessão divina, e que, já para Aristóteles, a arte não é fruto de inspiração, mas um método possível de ser ensinado.

Esse embate, no pequeno livro, foi a sorte contra o pouco juízo de nossa pequena Fu Lana. Convencida somente pelo título, pediu para substituir a compra. Optara pela capa azul daquele que reunia três estudos: um sobre paródia, outro sobre história da arte e o terceiro sobre novelas. Hiperacessível, aquele foi o peixe pequeno que engolira uma pedra valiosa. E Lana, a humilde e desavisada pescadora.

A questão da matemática e da arte fluía em paralelo em toda a leitura. E a definição de espaço, para cada época do mundo, era perceptível e clara. Fu Lana foi levada de Euclides a Einstein em poucas horas e da teoria da relatividade, não poderia acabar senão nos fractais. Porém, antes disso, passara por Klee, Kandinsky, Mondrian e Calder. Sempre discutindo diferentes conceitos de espaço em relação ao conhecimento científico da época. Como é prático e palpável pensar sobre o passado, esmiuçava Fu. O presente e o futuro, eis o desafio dos pensadores.

Por sua natureza gauche, Fu aproveitou melhor o texto de Lilian Cristina Monteiro França, sobre a geometria em história da arte. Para Lilian, “a geometria fractal desencadeia uma avalanche sísmica que vai abalar nossa concepção de ciência, arte e mundo”. Afinal, onde começa o caos, a ciência clássica pára. (J. Gleink). E Fu Lana segue citando, para não esquecer. Rilke: “As obras-de-arte nascem sempre de quem afrontou o perigo, de quem foi até o ponto onde nenhum ser humano pode ultrapassar”.

Neste texto tão documentado, a autora não poderia deixar de dar um conselho final: ainda estamos tateando. A investigação abre novas possibilidades, mas requer uma carga teórica, sem a qual se corre o risco de cair em um discurso vazio.

Porém, pensou Fu Lana, “para pescar daquela maneira, era preciso mesmo ter mais sorte do que juízo”.

Forma e Ciência. Vera Cecília Machline, Lílian Cristina Monteiro França e Jerusa Pires Ferreira. Educ – São Paulo, 1995.

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Autor

Clo Barcellos

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