Colunas

Fragmento I

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Aquela vila perdida e distante de tudo e de todos não mostrava ao Viajante sinais que o tempo havia passado por ali. Não se via letreiros coloridos, caminhões despejando fumaça ou antenas parabólicas nos telhados de telhas vermelhas. Apenas a solitária igrejinha branca com sua torre sem sino, as ruas vazias e alguns cachorros dormitando à sombra dos cinamomos.

O dia amanheceu e surgiram os primeiros sinais de vida. Abriu-se uma janela no grande casarão da praça e apareceu um velho de barba e cabelos brancos. Vestia um antigo camisolão militar de campanha e dele corriam casos de fazer suspirar as almas mais sensíveis. No mal iluminado e mal cheiroso botequim da esquina, meia dúzia de homens tristes bebiam, inventavam estórias e pensavam maldades. Um deles jurava pela alma da mãe morta que a figura à janela era a do falecido capitão de cavalaria que expulsou a tiros de Calibre Doze os correntinos que se atreveram a acender uma fogueira na praça.

A seu canto, o calabrês dono do boteco estava quieto e calado. Era quem conhecia mais segredos do homem do casarão que todos os bêbados juntos. Lembrava da noite de temporal em que espiou por uma janela mal fechada e viu os dois sabres de cavalaria cruzados na parede branca sobre uma bandeira da Provincia Cisplatina chamuscada de pólvora e furada de balas.

***

O Viajante passou diante do botequim e acenou para o calabrês. Depois deu mais uma volta na praça, desistiu e retornou para estrada. Com um gesto de mão afastou as lembranças tristes  que sempre teimavam em voltar. Soprou para o alto a fumaça do cigarro e seguiu em frente, sabendo que não encontraria sua alameda de plátanos dourados e o rosto atrás de uma cortina de rendas brancas.

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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