“Todos mostravam ansiedade e expectativa naquele domingo na fazenda. Menos meu avô e os tios, que mateavam placidamente, à beira do campo. Eles observavam a grande várzea, onde haviam sido fincadas estacas com bandeirolas amarelas e vermelhas em uma longa linha reta. Depois de algum tempo, ouviu-se o ronco dos motores, vindo dos lados da Lagoa dos Patos. Todas as cabeças se voltaram para o céu sem nuvens. No minuto seguinte, dois aviões prateados de asa dupla passaram em voo rasante, desenharam um grande círculo e pousaram no campo, deslizando entre as bandeiras coloridas. Os aviadores desceram e fizeram continência:
– Capitão Justo e Tenente Assis, da Força Aérea Brasileira, se apresentando.
Receberam de volta tímidas palmas dos homens, seguidas de histéricos gritos das mulheres e crianças. Cerimoniosamente, o avô levou os pilotos até a sombra dos cinamomos onde grandes espetos de costilhares de gado e ovelha os aguardavam. Naquele minuto, o pessoal correu para ver os aviões, curiosos com a repentina novidade que caíra dos céus. Encantados e cautelosos, rodeavam os “aeroplanos”, admirando as asas duplas balançando ao vento, as hélices brilhantes e a bandeira brasileira pintada nos lemes. Alguém pediu para eu ler em voz alta os nomes pintados no dorso dos motores:
“Sacadura Cabral” e “Gago Coutinho”.
A tarde avançou rápida e chegou a hora dos pilotos se despedirem. Eles deram partida nos motores, com um barulho assustador e levantando nuvens de fumaça azulada. Depois decolaram, com um último voo rasante. Em segundos, viraram dois pequenos pontos no céu dourado da tarde. Foi naquele dia que me contaram que a fazenda do Passo Grande era campo de pouso de emergência dos aviões militares que faziam patrulha na fronteira com a Argentina.
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Eurico era dentuço, fortão e arrogante. Os colegas da 2a. série evitavam cruzar por ele na saída do Rosário. Eu era um dos que atravessavam a rua quando o viam. A diversão do Eurico era implicar com os meninos mais fracos. De certa vez, sem motivo, socara o braço do franzino Moshe, que deixou uma mancha roxa por muito tempo. Os meninos da minha rua gostariam de se vingar, mas cadê coragem? Até o dia em que o David, irmão mais velho do Moshe, veio com uma idéia malvada. Todos sabiam que o Eurico se orgulhava de sua bicicleta, equipada com farolete, campainha e uma bolsa vermelha (dizia-se que ele guardava ali as figurinhas Red Boy, roubadas dos meninos). Foi na véspera de São João, na hora em que acendiam a fogueira na Felipe Camarão. Com o David à frente, fomos até onde o Eurico guardava a bicicleta. Como já era noite, a gente não conseguiu ver direito o que o David fez no escuro. Os dias seguintes foram chuvosos e ventosos e todos ficamos em casa. Quando o sol voltou, ninguém viu nem o dentuço nem a sua bicicleta. Fomos ao armazém de dona Berta, procurar o David e ele, com um riso misterioso, disse que em boca fechada não entram moscas. E nos fez prometer silêncio sobre a noite de São João.
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As coisas começaram a ficar estranhas com a notícia de que a tradicional feira de flores havia sido cancelada. Andando pelas ruas de Aix, notei que as pessoas olhavam apreensivas para cima, como se o céu estivesse prestes a desabar sobre suas cabeças.
‘Estranhos estes provençais’, pensei.
No bistrot da praça, o garçom fumava à porta, enquanto espiava desconfiado para o céu. Perguntei o que estava acontecendo. Ele deu de ombros e apontou o ‘Le Provençale’ em uma mesa do terraço. Na primeira página, a manchete avisava que o campeonato de boules estava suspenso por “motivos atmosféricos”. Voltei ao garçom para entender a razão daqueles estranhos cancelamentos. Ele meteu a bituca de cigarro na garrafa vazia de Perrier e deu de ombros de novo:
“ – C’est le sâcre vent, Monsieur, le sâcre vent …”.
Então, um tal de ‘vento sagrado’ era o responsável por tudo? Mas logo entendi o porquê dos olhares apreensivos para o céu. Toda a Provence estava à espera do Mistral, o mais temido dos ventos que assombram o sul da França. Fala-se que este vento mitológico nasce na Sibéria, percorre a Europa Central, desce o vale do Rhone e chega à costa a 180 quilômetros por hora. A se acreditar nas lendas, quando o Mistral sopra na primavera, derruba as temperaturas de 25 graus positivos para 10 negativos. Os bares fecham as portas, as pessoas trancam suas janelas, os cães uivam como lobos selvagens e as vacas parem os terneiros antes do tempo. E eu estava exatamente no caminho do tal vento sagrado. Talvez uma boa estória para contar aos netos?”.

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