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Fuligem

Ela passa e de tudo guarda algo. Um dia será preciso limpar a chaminé. E a fuligem – como as lembranças – vai se …

Ela passa e de tudo guarda algo. Um dia será preciso limpar a chaminé. E a fuligem – como as lembranças – vai se agarrando às roupas limpas e marcando para sempre. A figura da chaminé não é dela. Leu-a em O Dia em que Nietzsche chorou*.

Fu Lana, quando na faculdade de jornalismo, procurou ler Nietzsche, mas irritou-se e atirou o livro pela janela do banco da frente da Kombi-Lotação que a levava para casa. Não lembra exatamente sobre que ponto exato era aquele assunto que a fez sorrir maliciosa enquanto o livro se despedaçava avenida abaixo. Imaginou alguém encontrando aquele volume e aproveitando-o melhor do que ela. Em sua maldade optou pela idéia de uma fogueirinha de papel.

O motivo da explosão tinha a ver com traição entre homem e mulher, onde ele estaria autorizado a amar tantas vezes quanto suas possibilidades de procriação. Enquanto à mulher, restaria a possibilidade de procriar uma vez a cada mês. Portanto, não há traição, mas uma orientação biológica. Fu Lana continua vendo aquele livro voar.

Em Quando Nietszche Chorou, sob a luz da ficção, Irvin D. Yalom aproxima-nos do filósofo que se oferece de vítima a mártir da humanidade na escolha de ser aquele que disseca a vida em vida e encontra nada mais do que a morte. Ele se oferta ao sacrifício de pensar o impensável às últimas conseqüências, mesmo que isso o destrua. Fu Lana gostou de sentir empatia a partir do livro naquele resgate pessoal de um momento tão intempestivo quando atirara aquela brochura pela janela.

Sempre foi assim. A cada vez que lhe ocorre uma hipótese (é como denomina alguns pensamentos), imediatamente pensa em registrá-la seja para falar ou pensar sobre ela e enquadrar aquele acontecimento com outros, compondo um quadro, tal em uma colagem, assemblage (francês). Mas não consegue. Nem uma palavra Fu Lana materializa. Seus registros não são mais do que sonhos. Pedaços de lembranças de Fu Lano, seu pai, papos de trabalho, crianças, televisão, ruas, escritos. Tudo misturado. No dia marcado para morrer, ou próximo a vencer o prazo de entrega de um texto seu, procura na memória alguma pista já deletada daquilo com o qual se deparara durante dias e nada mais encontra, não mais do que a lembrança de ter tido umas idéias há alguns dias. Em sua busca, através de palavras-chave, na geringonça recauchutada que é a sua mente, obtém apenas o retorno de zilhares de coisas que não interessam, como agora, na hora exata de escrever. Não há gerenciador de arquivos na cabeça de Fu Lana. E o livro segue ali, parado, como a prova de que entraram em sua mente Nietzsche, Freud e Breuer, que a levaram a questionamentos do tipo: quem faz suas escolhas? A vida ou você? A Nietzsche deve ter sido permitido questionar à exaustão ao desacreditar na existência de um só homem que desafie os conceitos e a essência da vida sem que este seja destruído pelo próprio questionamento.

Fu Lana adora que os livros lhe sacudam as entranhas preguiçosas do cérebro. Mesmo que por pouco tempo, enquanto dura o romance.

* Quando Nietzsche chorou

De Irvin Yalom;

Tradução de Ivo Korytowski

Ediouro, 8a edição, 2004

[email protected]

Autor

Clo Barcellos

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