Não tem moleza. Pisou nos calos, Fu Lana canta de galo. Ela soube que havia um debate no meio cultural sobre apoio e financiamento à Cultura. E daí, que fez o seguinte e breve raciocínio: Quando a empresa define o projeto que financiará através da LIC (Lei de Incentivo Cultural), ela está decidindo onde será aplicado o dinheiro público (através da isenção).
No Fumproarte, um financiamento municipal direto em Porto Alegre, quem decide onde será aplicado o dinheiro público é um colégio de entidades reconhecidas da área cultural. Há, neste concurso, um rigor e uma precisão que só admite 0,01% de erro na parte técnica. Ou seja, já na largada, quem erra, cai.
Na LIC estadual em vigor, muitos projetos aprovados dentro das instruções normativas geradas nos últimos anos em processos democráticos – alguns já com patrocinadores interessados – não têm recebido autorização legal para fazer jus ao benefício a que têm direito. No entanto, como foi denunciado pela Associação de Produtores Culturais em Porto Alegre, alguns projetos circulam em “Rito Especial”, um quesito informal e subjetivo de avaliação. Tais privilegiados têm tratamento diferenciado.
Fu Lana precisava de um exemplo. Não bastava para concluir.
O que muda para quem quiser montar … uma peça teatral?
– Na LIC estadual, o projeto está sujeito à avaliação de uma empresa, e deve se enquadrar no marketing cultural da empresa.
– No Fumproarte, a qualidade e a autenticidade do projeto serão avaliadas pelos representantes da comunidade cultural. Assim, o Fumproarte incentiva o surgimento de novos projetos culturais locais e de menor custo, porém com muita significação. Quanto mais próximo à comunidade, mais autêntico.
Pensando sério, em Porto Alegre já está comprovada a possibilidade de convivência entre diferentes formas de incentivo: leis federais e estaduais com um fundo municipal direto de financiamento da cultura. Substituir esse processo rico e criativo, que está dando certo e que não sofreu nenhuma restrição quanto à sua transparência, por mais uma Lei de Incentivo é acabar de vez com a alternativa para os pequenos. Fu Lana sabia disso, pois já rodou com projetos culturais em todos estes âmbitos. As somas que precisava para seus projetos eram risíveis às empresas e suadas junto ao poder público. Lembrou da trupe Ói Nóis Aqui Traveiz, por exemplo. Atual Terreira da Tribo, com 25 anos de estrada, é um grupo consolidado. Porém, em seu período de surgimento e sobrevivência, recebeu apoio decisivo do Fumproarte. Que LIC hoje apoiaria tal iniciativa ou o surgimento de um novo Ói Nóis? O Fumproarte foi responsável por centenas de projetos em todas as áreas culturais. Muitos deles não teriam acesso a LICs, ainda mais sofrendo a concorrência desleal do tal “Rito Especial”. Afinal, o que se quer: autenticidade ou adequação? Sem porta-voz, Fu Lana colocou a pergunta em um envelope e enviou ao Paço Municipal com votos de Feliz Natal.
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Por obra do destino, ela foi à pré-estréia de Meu Tio Matou um cara, uma comédia infanto-juvenil com a marca didática de Jorge Furtado. Entre um champã e uma torradinha com pasta de tomates secos, pôde ouvir Jorge dizer com modéstia: “Conseguimos no mínimo conquistar a tranqüilidade para o Nei (Lisboa), o que é uma vitória histórica”. A trilha de Caetano Veloso é a grande estrela na tela. E ouvir o Nei na voz de Caetano é de lavar a alma. Só naquela noite, 700 cds foram vendidos. Na fila que se formou serpenteando o segundo andar do Bourbon Country, ouvia-se: “Por muito menos, meu tio matou um cara!”. O filme é divertido e traz aquele jeitinho arrastado do falar-adolescente-brasileiro. Outro prazer fica por conta do estilo narrativo, mais interessante até do que a história narrada. Vá ao cinema, compre o cd e prestigie a boa arte.

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