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Gabriela, amigos e sonhos

Como renovei a minha carteira de “supermãe moderna, irada e tudo de bom” e estou com o sindicato das mães atuantes em dia, seria …

Como renovei a minha carteira de “supermãe moderna, irada e tudo de bom” e estou com o sindicato das mães atuantes em dia, seria redundante eu repetir que a minha filha Gabriela Martins Trezzi, várias vezes citada nas colunas, é e sempre será o fermento de minha vida. Tudo que eu faço é pensando na felicidade dela, no sorriso que vou ganhar, no abraço que vai me acarinhar e na construção de um futuro melhor para a adolescente em formação vulcânica. Mas, depois da Gabriela, escolhi os amigos e os sonhos para me acompanharem como valores essenciais e indispensáveis na trajetória de meu caminho.

Gabriela, amigos e sonhos são alimentos diários de minha rotina. Na creche freqüentada pela minha filha quando menor de seis anos, aprendi com a meiga Magali que educar é um ato fecundo de amor. Se meu desejo é ajudar a erguer um mundo melhor para a minha filha, e isso, às vezes, ultrapassa a classificação de sonho e passa a utopia, devo enfatizar na sua educação a importância de preservar os amigos e jamais abandonar os sonhos, mesmo os mais impossíveis. Nestes 12 anos de convivência entre mãe, filha e amigas, tenho sido rigorosa na fixação dos aspectos emocionais.

A música “A Lista” do Oswaldo Montenegro (o.k., todo mundo tem um lado brega ou então atire a primeira pedra), que  já conhecia, mas reencontrei dia destes vasculhando uns sites, aguçou a minha dúvida sobre a força feita, nos últimos tempos, para manter os amigos e os sonhos.  A indagação não cabe só no meu cotidiano, sempre repleto de coisas a fazer, mas se encaixa no dia-a-dia de todos (tá bem, um pouco metida). A música propõe que se faça uma lista de grandes amigos, quem você via seguido há 10 anos, quantos você ainda vê todo o dia e quantos você já não encontra mais.

Na foto do passado da minha infância, reconheci poucos amigos que conviviam comigo, no espelho de agora. No álbum de recordações do colégio (caderno que as meninas usavam para ter lembranças dos “amigos”), ao rever os nomes com textos que sempre traziam no final a promessa “para sempre”, muitos eu nem faço idéia de quem sejam. Imaginem se sei o que eles fazem. Na fase de adolescente, a lista de quem ainda vejo seguido começa a aumentar. E, agora, direi, na faixa etária de uma jovem senhora, além de trabalhar com uma lista de quem vejo bem mais ampla, ando apostando nos reencontros.

Assim, saí no início da semana toda faceira para comprar uma roupa baratinha de hippie/alternativa/contestadora para a festa dos “Anos 70”, que marcará o primeiro grande evento da minha turma da Famecos em 2007. Os estudantes da Comunicação Social da PUC de 79/1, que se reaproximaram no final do ano passado, estão eufóricos trocando emails sobre os “modelitos” e as músicas tocadas na festa. Parece até que contrataram um DJ para turbinar o som da festa, que promete amanhecer lá pelos lados da Zona Sul e fazer os quarentões da Saudosa Maloca (apelido carinhoso da turma) sacolejar os esqueletos.

Ao lado de muitos destes amigos, eu sonhei que iria mudar o mundo. E, assim como eu, alguns ainda não desistiram desse sonho e de uma infindável lista de outros desejos e ideais tão utópicos. Na companhia de muitos destes amigos, muitos mistérios sussurados, segredos guardados e nunca revelados, hoje talvez até possam parecer piadas ou bobagens. Nas reuniões ou festas nas casas das praias, eu costurei, com pontos alinhavados, a imagem de um país melhor, dignidade, educação, saúde e habitação para todos. E não adianta me chamar de “fora da casinha” que ainda mantenho esse sonho.

Os maloqueiros e maloqueiras da Famecos 79/1, que fizeram, na época, a hora, não esperando acontecer, hoje buscam refazer novos sonhos, nem que seja para os filhos ou netos, reforçar a amizade que nunca foi perdida, apenas esteve distanciada e, mais do que nunca, falar alto, cantar, dançar, ser alegres relembrando e nostálgicos esquecendo o que era ruim. Na festa dos “Anos 70”, os estudantes do século passado vão arrombar a festa. Eu, principalmente, com a certeza de que terei muito assunto para explorar com a Gabriela nos dias posteriores à festa. Sim, sobre o valor da amizade e os sonhos que nos cercam. 

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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