Colunas

Gastronomia no ar

Sou do tempo em que programa de culinária era com a dona Mimi Moro (1894-1977), na antiga TV Piratini. O programa era Cozinhando com Dona Mimi,  em preto em branco, com uma equipe de produção  muito criativa para compensar as carências técnicas da época.  As panelas fumegando, por exemplo, eram focadas através de um espelho colocado acima do fogão, um Wallig, por certo. No fim do programa, a equipe devorava as guloseimas preparadas pela dona Mimi, num tempo em que as frituras não eram demonizadas como hoje.  

Recupero essa lembrança publicada em 2015 a partir da revelação na coluna anterior da minha inveja com a oferta de atrações gastronômicas na TV e nas redes sociais, provocando humilhação a este desprovido de talentos culinários.

Acredito que coube ao Anonymus Gourmet, que os seus contemporâneos jornalistas conhecem como Pinheirinho, dar continuidade à atividade gastronômica na televisão gaúcha, primeiro na RBS e depois no SBT. Eventualmente cruzava com ele no Calçadão de Ipanema, trocando amabilidades e uma ou outra vez deixei registrada a minha inconformidade por ele rejeitar o potencial culinário da berinjela, no que recebi o convicto apoio da simpática esposa dele.

Agora restaram os Destemperados Lelia Zaniol e Diogo Carvalho e o El Topador, Antonio Costaguta e seus churrascos e assadas de apartamento, sempre com a presença de convidados.

Na real,  a culinária está presente em praticamente todos os programas da linha de entretenimento das nossas TVs e até de alguns de viés jornalístico como o JÁ, que nas suas incursões às festas regionais sempre oferece uma amostra das delícias dos pratos típicos locais. É de dar água na boca.  Nas redes nacionais não faltam atrações nos canais abertos e pagos, do programa da caldável Rita Lobo à mesa farta da eterna Ana Maria Braga e seu Louro, passando pelo naipe masculino representado pelo Rodrigo Hilbert  e o Claude Que Marravilha Troigos e seu sotaque forçado.  Outra estrangeira na constelação televisiva-gastronômica é a argentina Paola Carosella. Também não faltam competições em vários canais, com destaque para a Band e o já consolidado Masterchef Brasil, apresentado como o maior reality culinário do mundo. Por fora corre o fenômeno food truck que começa a também ganhar espaço na TV. E aqui no RS já existem disputas para saber em qual cidade é produzido o melhor chesse, aliás, o melhor Xis.

Se existe oferta é porque tem demanda – e patrocínios comerciais -,  o que explica a profusão de programas e até mesmo canais dedicados exclusivamente à culinária, como o ChefTV . Pode ser modismo, mas acredito que a gastronomia televisiva veio para ficar, uma vez  que reúne alguns ingredientes  presentes com muita força nestes tempos hedonistas: apresentadores que fazem o estilo de celebridades, ambientes  glamorosos, disputas nos reality shows e prazer envolvendo uma necessidade básica, a alimentação. E assim já disputa espaço nobre com as novelas, os noticiários  e as coberturas esportivas.

Toda essa onda provocou a mais profunda mudança nos hábitos alimentares desde que o homem descobriu o fogo e passou a utilizá-lo no preparo da sua nutrição. Agora o prazer da comida passou da mesa para o fogão e deste para a TV, tornando mais verdadeira do que nunca a expressão popular “comer com os olhos”.  Dona Mimi Moro certamente não imaginaria tanto.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.