“Quem acha que a luz do sol faz felicidade,
nunca dançou na chuva”.
(Gene Kelly)
Certo dia, perguntaram a Louis B. Mayer, o big boss da Metro-Goldwyn-Mayer, porque ele gostava de produzir filmes musicais. Sua resposta:
“- Porque fazem as pessoas felizes”.
Ele era um imigrante judeu russo que se tornou um dos homens mais poderosos de Hollywood. Sob seu comando, a MGM, no auge de glória e fama, produzia um filme a cada sete dias. Comentava-se então que havia mais estrelas em Culver City, sede da MGM, do que no céu da Califórnia.
***
Os grandes filmes musicais sairam de moda nos anos 70/80. Nos dias de hoje, apenas incuráveis saudosistas ainda recordam o deslumbramento de ver dançar e cantar Judy Garland, Gene Kelly, Fred Astaire, Donald O’Connor, Ann Miller, Cyd Charisse, Ginger Rogers, Julie Andrews.
O primeiro filme musical foi lançado em 1927 – The Jazz Singer, com Al Johnson cantando de cara pintada. Foi também o primeiro filme sonorizado, uma ousadia da Warner Brothers, que anunciava o fim do cinema mudo. A MGM não demorou em adotar a novidade e produzir seu primeiro musical, The Broadway Melody, que ganhou o Oscar de Melhor Filme de 1929.
Apenas no ano de 1930, Hollywood lançou nada menos que 100 musicais, recrutando todos os atores e atrizes capazes de cantar e importando talentos europeus como Marlene Dietrich, Ives Montand e Maurice Chevalier. Foram também convocados as duplas de libretistas e compositores que faziam sucesso na Broadway: George & Ira Gershwin, Irving Berlin & Moss Hart, Rodgers & Hammerstein, Alan Jay Lerner & Frederick Loewe. A trilha sonora dos filmes tornou-se exuberante, enriquecida por temas e canções extraordinárias, que ficaram para sempre em nossa memória.
Nas décadas seguintes, os estúdios adotaram as novas técnicas de som e de colorização – como o Technicolor –, que multiplicaram as bilheterias e criaram uma nova forma de comunicação global. Surgem então as produções que escreveram a história do cinema: Show Boat, Easter Parade, An American in Paris, Singing in the Rain e The Band Wagon, seguidas nos anos 1960 por West Side Story, My Fair Lady, The Sound of Music e Mary Poppins.
***
O crepúsculo da era de ouro dos grandes musicais começou em 1951, quando a MGM completou três anos sem ganhar um Oscar de primeira grandeza. Os acionistas pressionaram e os produtores se deram conta de que o gosto dos espectadores estava mudando com a chegada da televisão, já presente em 90% dos lares dos Estados Unidos. A partir desse momento, a MGM decide adotar a proposta do “cinema de mensagem” do produtor Dore Schary – que iria substituir o conceito “Ars Gratia Artis”, dos filmes de Louis B. Mayer e slogan da MGM desde 1916.
Com a perda de poder, Mayer se afasta de Culver City, e morre em 1957. Um dos fundadores do cinema moderno, ele foi um personagem contraditório, além de arguto descobridor de talentos, revelando Greta Garbo, Clark Gable, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Lon Chaney, Joan Crawford, Jean Harlow e Judy Garland. Gostava de negociar pessoalmente o salário dos artistas e tinha a fama de nunca dar aumentos aos seus contratados. Elizabeth Taylor o descreveu como “um monstro”, mas Katharine Hepburn jurava que ele era um “bom homem”.
***
Nos dias de hoje, Hollywood e Culver City pouco guardam dos tempos áureos dos elencos fabulosos e orçamentos multi-milionários. Os centros de produção agora são unidades industriais que geram incontáveis produtos para o show-business. As mega-fusões diluiram a identidade dos estúdios e o sucesso passou a ser medido em Wall Street. Os boards das corporações substituiram o big boss e os espectadores da tela grande estão emigrando para a televisão HD por satélite.
Quanto aos grandes astros e estrelas que nos encantavam no escurinho do cinema, agora habitam a seção de “Clássicos” das locadoras virtuais e ressurgem todos os anos nas homenagens “Life Achievement” das cerimônias do Oscar.
Enquanto isso, lembramos das emoções que nos proporcionava o genio de Gene Kelly:
“I’m singin’ in the rain, just singin’ in the rain
What a glorious feelin’, I’m happy again
I’m laughin’ at clouds, so dark up above
The sun’s in my heart and I’m ready for love
Let the stormy clouds chase everyone from the place
Come on with the rain, I’ve a smile on my face
I walk down the lane with a happy refrain
Just singin’, singin’ in the rain, dancin’ in the rain”.
***
(“Eu estou cantando na chuva, cantando na chuva
Que sentimento glorioso, eu estou feliz de novo
Estou rindo de nuvens, tão escuras lá em cima
O sol está em meu coração e eu estou pronto para o amor
Deixe as nuvens da tempestade perseguirem os outros
Vamos com a chuva, tenho um sorriso no meu rosto
Eu vou pela rua com um refrão feliz
Apenas cantando, cantando na chuva, dançando na chuva”).


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial