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Mario de Almeida, beleza de inventário. Memória seletiva a 100% de pureza. Faltou um item de teu inventário que para mim é muito importante: …

Mario de Almeida, beleza de inventário. Memória seletiva a 100% de pureza. Faltou um item de teu inventário que para mim é muito importante: nascimento e data de aniversário de Carla e Rachel – filhas. Abraço. (Eloí Flôres, diretor da ULBRA Campus Guaíba, filho por adoção, Porto Alegre.)

 

Rachel nasceu na tarde de 13 de outubro de 1978.

Em setembro de 1979, quando Aurea e eu tomávamos o café da manhã, ela disse sua primeira palavra: Papai!

Carla nasceu na noite de 8 de maio de 1980.

Na manhã de 8 de maio de 1945, nossa aula de francês foi encerrada pela declaração que a guerra contra a Alemanha e a Itália havia acabado. Os alunos levantaram-se sem nenhum comando, e cantaram a Marselhesa. A professora – Marina – era uma refugiada parisiense. Carla é paz.

Este publicitário, em 1970, teve que ir à Bahia de muletas para fazer um trabalho urgente. Eloí, estudante gaúcho de férias escolares no Rio, conheceu Salvador como meu enfermeiro.

A maior coincidência da minha vida aconteceu antes de eu nascer, quando meus pais se conheceram.

Uma de minhas últimas lembranças ainda morando em Campinas foi que caí de um balanço onde meu avô Coelho me levava.

Já morando em São Paulo, numa noite visitando minha tia Lucília em Campinas, acordei com meu pai de cuecas, trepado numa cadeira. Era uma barata. Até hoje mato baratas com a mão.

A primeira silabada da qual me lembro foi saudada por gargalhadas de minhas irmãs e pais. Falei “catastrófe”.

Até hoje, ao pensar, falar ou escrever “clitóris”, tenho que dar um segundo mental para não escorregar no acento tônico.

Não consigo “engatilhar” duas notas musicais. Nas provas de Canto Orfeônico, eu tinha que dizer a letra de um hino sorteado.

O professor de Canto Orfeônico era o maestro Caldeira.

Quando o professor de trabalhos manuais – Benedito – citou o sábio Anaxágoras por afirmar que “o homem pensa porque tem mãos”, perguntei: e o maneta, professor? Fui expulso da aula.

Quando, aos sete anos, quebrei o braço e fui engessado, o mais cruel foi ficar respondendo como acontecera o acidente. Aos trinta, quando ganhei gesso na perna direita, havia mais espaço e escrevi: caí na escada.

No início de 1964, Samuel Wainer recebeu uma grana gorda para que a Última Hora não publicasse nada sobre a encampação de refinarias. Fomos proibidos de noticiar sobre o assunto. Propus e foi aceito que eu, de comum acordo com alguns sindicatos, escrevesse manifestos a favor das encampações, os quais foram publicados como “matéria paga”.

Baixei uma noite de sábado no cassino da praia de Cassino, na cidade de Rio Grande, dei cobertura para o fotógrafo que conseguiu material para duas páginas da Última Hora gaúcha. A reportagem fechou o cassino por algum tempo.

A maior molecagem da minha vida é histórica: na manhã do golpe de 2 de abril de 1964, publiquei na minha coluna Sem Censura, na UH , a carta testamento de Vargas, mais a foto dele e fugi.

Enquanto fugia, vi jipes de Exército recolhendo o jornal nas bancas. Um dia, Abujamra me disse: Mario, tenho um exemplar.

“Da vez primeira em que me assassinaram, perdi um certo jeito de sorrir que eu tinha…” confessou Mario Quintana. Na minha vez primeira levei alguns anos para resgatar o sorriso perdido.

Ganhei na capa do disco Urubu, do Tom Jobim, a seguinte dedicatória: Para Mario de Almeida, irmão, amigo e colega, com o amor do Tom Jobim.

Numa colagem premiada num concurso de artes plásticas, a cópia dessa capa está ao lado de diversos bilhetinhos do Otto Lara Resende em cartões da Academia Brasileira de Letras.

No restaurante Gigetto, em São Paulo, proverbial ponto de encontro da turma de teatro, ganhei um beijo de Cacilda Becker, a estrela antecessora de Fernanda Montenegro.

Num voo Brasília/Rio, ganhei um beijo da Divina, Elizeth Cardoso.  Nunca imaginei que a vida me seria tão generosa.

Nesse mesmo voo adverti Nelson Rodrigues para fechar a braguilha.

Durante a temporada de Vestido de Noiva, no Teatro Regina (hoje Dulcina), no Rio, o autor Nelson Rodrigues começava um papo, no meu camarim com o bordão: Sou um triste, Mario, sou um triste…

Quem chegou de avião a Porto Alegre nos últimos 50 anos passou pelo O Laçador, escultura de Caringi cujo modelo foi o tradicionalista Paixão Côrtes, que, nos entreveros com a saúde, felizmente, vem ganhando todos eles.

A primeira rua exclusiva de pedestres no Brasil é a XV de Novembro, em Curitiba, implantada pelo então prefeito Jaime Lerner, em 1972.

Lúcio Costa foi o responsável pelo plano de ocupação da Baixada de Jacarepaguá, Rio, em 1955, e esqueceu que na metade do século XIX, já havia metrô em Londres. Na Barra da Tijuca poderia ser até na superfície.

Perdi-me dentro de um elevador no edifício projetado por Niemeyer na Rua Visconde de Pirajá, Ipanema, Rio, pois entrei pela frente e demorei a descobrir que a porta de saída é nos fundos.

Eu tinha dez anos quando ganhei um concurso escolar de matemática. O prêmio foi um livro do Malba Tahan autografado e entregue pelo próprio, Júlio César de Mello e Souza.

Malba Tahan era tio do Nelson e Paulo de Mello e Souza, com quem, 40 anos depois, trabalhei na Fundação Roberto Marinho.

Irmão de ambos, faleceu há pouco o grande jornalista e amigo Cláudio Mello e Souza, com quem, muitas vezes, almoçamos trocando ideias sobre a obra de Machado de Assis.

“Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro.” (Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis).

Com um mínimo de ideias no trapézio que tenho no cérebro, mas com um montão de lembranças, despendurei essas aí.

Inté.

Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)

Arrolando ainda, né? não é mais inventário, mas pode ser. Parece que acertei, eu e mais alguns muitos leitores acompanhamos com encanto o inventário e agora mais as gotinhas pingando na página, para nosso gáudio. Vera Verissimo, psicóloga e tradutora, Porto Alegre.

Olá, quatrocentão. Tua crônica está muito boa. O bonde Vila Madalena era o 28. No dia do seu aniversário tinha parada militar, no meu não! No porão da Caetano tinha o Clube do Benê (Prof. de trabalhos manuais). A professora Iracema era linda e casou com outro professor, se não me engano Ubirajara. Morri de inveja. Um abraço, Coelho (Eduardo), empresário imobiliário, São Paulo. (Eduardo: o felizardo da Iracema era o Irajá, meu professor de Português. Ambos ainda eram solteiros e estudantes de Medicina. Encontrei-os, já casados, nas bodas de prata do Piratininga. Belíssima Iracema. M.A.).

Que lindo texto, Mário, adorei e me emocionei!

Vou tentar fazer um Conta-gotas com minhas memórias, também. Se ficar decente, envio pra você. Tomo a liberdade de enviar, em anexo, um texto que me foi enviado por meu filho Felipe, quando eu aprendi a usar a net. Texto que acho cheio de verdades e emoções, de filho pra mãe e pai. Grande beijo, Monica Magaldi Suguihura, bioquímica, Bebedouro, SP.

Mario, dividir lembranças é generosidade – resgata o nosso jeito de ser, a nossa cultura. Agradeço o gesto. Abraços, Denise (Demange), viúva de grande amigo, São Paulo.

Parabéns, Mário! Quase nada é melhor do que boas e saudosas lembranças. Um grande abraço. Marco Mazzoni, analista de sistemas, Rio.

Prezado Mario, das suas incursões por São Paulo e CR Tietê, lembro-me de quase tudo. Saudades. Eng. José Carlos Pellegrino, São Paulo.

Meu querido Mario, cada vez melhor. Belíssima a coluna com estas reminiscências todas. Muito bom. Abraços. Isnard (Manso Vieira), jornalista e publicitário, Rio.

Mario… a Japonesa… onde além do sanduíche de sorvete a gente costumava ir quando se cabulava aula ou se ia jogar snooker no Bar e Bilhares Telefônica (com circunflexo mesmo), e meu amigo Mario ganhava todas. Inté. Luiz Fernando Di Vernieri, executivo, Campinas.

Ao pé da coluna:

Inventário e Conta-gotas – Tio, você me emocionou muito com suas duas últimas colunas e, como já disse uma vez, você escreve coisas que gostaria de conseguir escrever. Muito lindo! Beijos, Ruth Negrini (Neguinha), São Paulo.

Mario, querido, parabéns pela tua sensibilidade e pela beleza do texto!

Aproveito para te informar que ainda existe sorvete / sanduíche, pelo menos em Porto Alegre. Tenho comido em uma galeteria na zona norte e se chama panino. Na tua próxima vinda a Porto Alegre estás convidado a saborear alguns. Beijos, Cristina (Zanini), professora, Porto Alegre.

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Autor

Mario de Almeida

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