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Gracinhas com bula

Irritante. Os primeiros minutos do filme foram feitos para serem odiados. Risinhos, piadinhas sem graça, mulheres com vozinhas finas e cheias de cri-cri. No …

Irritante. Os primeiros minutos do filme foram feitos para serem odiados. Risinhos, piadinhas sem graça, mulheres com vozinhas finas e cheias de cri-cri. No entanto, o plano do diretor estava traçado: precisávamos nos sentir incomodados, ranzinzas, para depois mudar. E, pasmem, mudamos. Ao final da fita, saímos dando risadinhas cúmplices da amizade que nos permitimos sentir. Pode isso? Mudar tanto vendo Simplemente feliz?

Ir ao cinema é antecipar a surpresa, afinal todos comentam os filmes e sabemos o que esperar, em tese. Vais ver Pollyana? A referência vem de 1913, de uma personagem de Eleanor Porter. Uma guria de 11 anos que também irrita de tão feliz e que deu origem ao modo Pollyana-de-ver-a-vida. Fu Lana sabia tratar-se de um filme otimista, e dos piores:  sempre risonho. Pode cair o mundo, a sua bicicleta preferida é roubada, o demônio anda à solta, crianças apanham dos namorados das mães e Pollyana sorri, isto é Poppy (Sally Hawkins). Olhando para o céu, acha tudo lindo. Não é absolutamente irritante?

Porém, a mágica acontece quando nos reconhecemos em um dos piores personagens do filme. Um maluco babão que transborda violência, apesar de não saber disso. Logo, ao admitir nosso ódio por Poppy, sua aparente superioridade, sua felicidade constante, suas piadinhas infames, sua vozinha estridente, percebemos que estamos, na verdade, gostando dela. Porque é muito bom ter alguém sorrindo por perto. Achar graça é de graça, fazer graça não é proibido. É um talento. E fazer rir, então? É uma bênção. 

Percebemos que ridículo mesmo é estar preocupado, furioso, mal-humorado. Que mal tem em descobrir uma livraria em uma feirinha de quinquilharias e artigos usados, entrar e puxar assunto com o cara do balcão? Todos com quem Poppy puxa conversa pensam que se trata de uma cantada. E fecham a cara. O relacionamento humano está por um triz. Até perdoamos uma cena deslocada, em que Poppy conversa, ou tenta se comunicar, com um mendigo em um lugar nada a ver com a história. O diretor (Mike Leigh) deve ter colocado aquela cena apenas para provar que ela não vê nenhum perigo e se aproxima de todos, sem receio.

O esforço que chatos como Fu Lana exercem sobre os felizes é prejudicial. Melhor que eles vençam. E Simplesmente feliz ajuda nisso. Para quem gosta de tramas e paranoia, trata-se de uma campanha para aliviar a tensão mundial.

Uma função que já foi também de Amélie Poulain, uma personagem bondosa e ingênua, que leva a esperança por onde passa. No entanto, Poppy leva o riso, o deboche, a brincadeira. O humor salva, desentope as veias e leva leve.

Sally Hawkins lembra uma amiga que todos já tivemos: sempre sorridente, original, diferente, normalmente solteira. Pessoas que, mesmo acompanhadas, não cultuam compromissos que a façam sentir presas, como entendem os que denominam compromissos os filhos e maridos. Poppy, apesar de possuir amigos, companheira e trabalho, não parece ter os problemas de qualquer mortal. O nosso ressentimento por ela torna-se maior por denunciar que aquilo que carregamos não é assim tão pesado e que, na verdade, nós é que não sabemos lidar.

Muda, Fu Lana. Muda, mundo.

Autor

Clo Barcellos

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