Ela estava no Rio Grande do Sul. Só isso determinava seu comportamento e bastava para predizer que ela detestaria o novo, o metido à besta e o enganador. No entanto, Grafia, a revista, a arrebatou. Apesar de inimiga-número-um de seus realizadores, por picuinhas que não vêm ao caso, Fu Lana rende-se à importância da publicação e à ousadia de seus idealizadores. Uma nova revista nesse sul canoniano? É digno de nota, louvor e estímulo, e vinda de seus concorrentes, valerá mais a crítica, com certeza.
Grafia é uma revista pretensiosa. A começar pelo formato. Quadrada, desafia o aproveitamento de papel. Fala aos clientes como professora. Por que pagar mais por uma calibração? Porque a calibração salva a publicação, Grafia explica. E mostra. Porque quando quer falar do novo, mostra do que se trata e, clientes, atentem para o que ela diz, pois interessa a toda a publicidade e a propaganda. A própria Fu Lana, quando procurar realizar os sonhos de seus clientes, vai ter de se servir da gráfica patrocinadora de Grafia, pois ela diz o que Fu Lana diria se estivesse a bordo.
Em pleno feriado, nossa heroína serve-se de um cafezinho mexido a pauzinho de canela, mas o que ela bebe, na verdade, é um vinho branco. Como agir assim, pergunta à Grafia, em um mercado de superlíderes que ainda dedicam seus portfólios a filhos e sobrinhos, que, com maquininhas digitais, fazem excelentes fotos desabrigando e desempregando fotógrafos profissionais?
Grafia, tens um desafio. Como alterar o caminho dos que desvirtuam os preços da página desenhada, que, a partir de um projeto gráfico, cobram merrecas para dar continuidade a um projeto de desenvolvimento de uma publicação, sem se importar sequer com o valor ditado por um sindicato de comunicação, aqui apenas digno de registro. Como continuar, Grafia, se a ética foi rompida e interrompida? Resposta: como dá.
Confessa Fu Lana que o mercado é mesmo assim, pois outro dia foi convidada para desenhar dez peças de um importante prêmio gráfico de excelência e, na hora do vamos ver, o trabalho ficaria com um aluno do Senac, que é parceiro do projeto. O menino vem de Sampa, para dar uma mão aos caipiras e, por baixo preço, quase apenas significativo, quebra um galhão.
Quando Fu Lana recebe a obra realizada e impressa, realizada por esse aluno-prodígio paulista, ela não é nada além do que um Rio Grande do Sul reticulado, dizendo que o desejo maior da excelência gráfica no Estado não passa de um desejo de possuir uma cuia. Aquela cuia da excelência gráfica. Cruzes.
Grafia, se veio para se desenvolver e ficar, depois do número um, deixe de fazer propaganda própria. Descubra os talentos locais e independentes. Entreviste-os. Farão, assim, além do exigido. Falem também com aquele empresário gaúcho de cem anos que lidera o setor e que insiste em deixar o marketing com sua secretária particular e que, quando ela se demite, se vê em uma sinuca como se tivesse perdido a própria mulher. Profissionais gaúchos, acordem e uni-vos. Será uma substituição da tradição, que já teve a sua vez. Grafia: o futuro depende também de vocês. Bom trabalho, e… sacrifício.

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