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Greguerias

As palavras são os esqueletos das coisas,por isso duram mais do que elas.(Ramón Gómez de la Serna) Há tempos, num caderno de jornal sobre …

de la SernaAs palavras são os esqueletos das coisas,

por isso duram mais do que elas.

(Ramón Gómez de la Serna)

Há tempos, num caderno de jornal sobre literatura, li interessante artigo sobre o escritor Ramón Gómez de la Serna. Envolvido, então, num grande trabalho, apenas  fiz anotações que agora, por acaso, me surgiram em meio ao exemplar de um livro.

A Internet informou o tamanho de minha ignorância, pois só no Google há mais de 150 mil sítios sobre a fascinante figura.

Vai aí um trecho do prefácio do livro Greguerias, assinado por Jorge Silva Melo: “Ramón Gómez de la Serna, ou simplesmente Ramón, como toda a Europa e América Latina artísticas o conheceram nos anos 20 ou 30, nasceu em Madrid em 1888. Aos vinte anos dirige uma revista literária (Prometeo) que durou até 1912. Interessado por tudo o que é moderno, funda, em 1915, na Calle de Carretas, não muito longe da Puerta del Sol, a tertúlia do ‘Café del Pombo’ por onde irá passar toda a ‘intelligentsia’ espanhola, e não só atraída pela sua fama de grande mestre do humor e da vanguarda. Tentou criar em Madrid um ambiente cosmopolita e verdadeiramente moderno. Viajou muito — viveu em Paris, Nápoles, Genebra, construiu uma moradia no Estoril, onde passou largas temporadas, mas é sobretudo Madrid que palpita na sua obra. Obra imensa — de todos os gêneros que existiam e que não existiam: romances,  crônicas, biografias, ensaios, autobiografia, numa lista de duzentos títulos. Foi traduzido por toda a Europa. Com Chaplin e Pitigrilli, foi o único estrangeiro admitido na Academia de Humor Francesa. E Valéry Larbaud, que poucas vezes se enganou, dele disse “Com Proust e Joyce é um dos maiores escritores do século XX”. Em 1936, com o deflagrar da Guerra Civil, parte para Buenos Aires onde conhecerá Luisa Sofovitch, que o acompanhou até à morte em 1963”.

Esta coluna trata hoje da invenção literária de Ramón, as Greguerias. O que são elas? Deixemos que o inventor as explique: “São apenas exclamações fatais das coisas e da alma ao tropeçarem entre si por puro acaso. Quando encontrei o gênero, dei-me conta que tinha de procurar uma palavra que não fosse artificial nem demasiado utilizada. Meti a mão no saco das palavras e ao acaso, que deve ser o melhor padrinho dos achados, tirei uma bola… Era gregueria, ainda no singular; mas eu plantei essa bola e tive um jardim de greguerias. Fiquei com a palavra pela sua sonoridade, mas também pelo que esconde no mistério do seu sexo. Greguería, algaravia, gritaria confusa (nos dicionários antigos significava a gritaria que fazem os leitões atrás da mãe). O que gritam os seres confusamente, o que gritam as coisas”.

Pelo que me foi dado perceber, greguerias não são aforismas e nem simples frases de humor, inda que possam ser alegres ou mesmo tristes.

Aforismo de Drummond: “O sofrimento é repartido ao longo da vida e separado por blocos de esquecimento”.

Humor do Barão de Itararé: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

Creio que a invenção de Ramón reúne “descobertas” ou metáforas conceituais que buscam ou tendem para a poesia.

Lembrei-me que Vera Verissimo, além de psicóloga atuante, também joga na área de traduções e como já devia a ela a tradução da última página do livro sobre o Teatro de Equipe, Trem de Volta, com esses mais famosos versos do espanhol Antonio Machado, (Caminhante, são os teus vestígios o caminho, e nada mais), resolvi aumentar a dívida:

Leia as greguerias traduzidas por Vera e veja se concorda comigo. Opine.

O mar arrasta os rios pelos cabelos.

O perfume é o eco das flores.

Abrir um guarda-chuva é como dar um tiro na própria chuva.

A noite chorava de frio.

As lembranças encolhem como as camisetas.

O livro é o salva-vidas da solidão.

O relógio não existe nas horas felizes.

A morte é hereditária.

As passas são uvas octogenárias.

As lágrimas desinfetam a dor.

Excesso de fama: difamação.

O bebê cumprimenta a si mesmo dando a mão ao seu pé.

Há o especialista em pedir o único prato do cardápio que já havia terminado.

Se conheceres demais a ti mesmo, deixarás de te cumprimentar.

Pelo não muito que conheço da literatura brasileira, Mario Quintana, principalmente nos Cadernos H, tem algumas greguerias: “Sonhar é acordar-se para dentro”.

Como o Fraga, aqui mesmo em Coletiva, já deu uma aula sobre os oxímoros, vou tentar uma gregueria por um deles:

“Ilustre desconhecido” só se justifica como epitáfio do soldado desconhecido.

Acuse-me: A imitação é a arte de quem não sabe fazer.

Um agrado à minha mulher: A morte de amor não mata.

A despedida deste patriarca: A vida longa dos felizes é sempre curta.

Inté é a forma demorada e já saudosa de dizer até.

Leitores na vitrine

Mario, essa frase de abertura é genial!

Abração,

Gustavo (Borja Lopes)

Mario Querido,

E em nossa maravilhosa Cidade, já que você é um carioca nascido em Campinas,

bem aqui em nosso Rio existe uma coisa a hora “tipo”. Passa lá “tipo duas e meia”. Mas o que vem a ser este “tipo”?

Um grande Abraço, sem a exatidão do tempo, mas a certeza de que filas matam tanto quanto o stress nosso de cada dia.

Guto Graça

Meu querido Mario,

Brilhante. Esta questão do tempo é mesmo terrível. Não é por acaso que Frei Damião, lá pelos anos mil seiscentos e pouco, fazia a sua festa, escreveu:

Pede-me Deus a estrita conta do meu tempo. É forçoso do meu tempo já dar conta.

Mas como dar sem tempo, tanta conta, em que gastei sem conta tanto tempo.

Para ter a minha conta feita a tempo dado me foi tempo. E eu não fiz conta.

Não quis, sobrando tempo fazer conta, quero agora pagar conta, falta tempo.

A vós que tendes tempo sem ter conta, não gasteis este tempo em passatempo.

Cuida enquanto é tempo, em fazer conta. Mas oh, se todos que contam com seu tempo

fizessem de seu tempo alguma conta, cuidavam certo a vida enquanto é tempo.

Abraços do admirador de sempre.

Isnard Manso

SENSACIONAL,MÁRIO!

Abração!

Michele (Freitas Benkendorf)

Mário. Desta vez, na falta de palavras e para ser sucinto, recorro despudoradamente a dois Grandes Brasileiros que você conheceu bem: se todos fossem iguais a você, que maravilha viver… Carinhoso abraço. Carlos Eduardo (Prof. Dr. Carlos Cunha)

Autor

Mario de Almeida

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