Vale sempre relembrar com doce alegria a tão espetacular quanto inesperada conquista da primeira Copa do Mundo de Futebol pela seleção brasileira. A euforia que tomou conta do povo foi espontânea e contagiante, tanto que fica difícil descrever o que rolou pelos cantos deste país.
Os registros históricos comprovam hoje que a euforia era mais do que justificável. A seleção fora para a Europa carregando uma mala entupida de descrédito. A desconfiança em relação ao que o “escrete canarinho” poderia fazer era agravada pelo sentimento de frustração com o desempenho nas duas copas anteriores, a de 50 no Brasil com seu Maracanazo, e a de 54 na Suíça, quando caiu nas quartas de final.
Não havia nenhuma convicção de que aquele time voltaria campeão porque poucos eram considerados craques. Pelé tinha apenas 17 anos e ainda era relativamente desconhecido – talvez até pelo próprio técnico, pois só foi escalado no terceiro jogo.
O Brasil estava impregnado daquilo que o genial Nelson Rodrigues identificou como complexo de vira-latas. O escritor e jornalista criou a expressão para caracterizar o sentimento que tomou conta do brasileiro após a inacreditável derrota para o Uruguai na Copa de 50, o tal Maracanazo. Seria, na leitura dele, um sentimento de inferioridade em relação aos estrangeiros, não só no futebol mas também em todas as suas manifestações, inclusive na cultura e na política.
Mas, como diria o craque Tostão anos depois, já no século 21, o jogo de futebol possui muito mais incertezas e mistérios do que sabe e imagina a nossa pretensiosa sabedoria. Pois em 58 a confiança foi crescendo gradualmente, à medida em que iam se somando os desempenhos positivos. A seleção chegou à semifinal sem tomar nenhum gol, com três vitórias e um empate. Tacar 5 a 2 na França plantou no espírito dos menos de 70 milhões de brasileiros, metade dos quais viviam na zona rural, a certeza de que daquela vez tudo seria diferente. O placar contra os franceses não deixava dúvidas: Pelé e companhia marchavam para a glória eterna.
Meu pai, reverenciado como Chefe Paulo por todos que o conheciam em Cachoeira do Sul, dirigia o Jornal do Povo com argúcia e sabedoria. Acumulava então as funções de empresário e jornalista, e não teve dúvidas de que, se o Brasil fosse mesmo tricampeão, o feito deveria ser registrado para a eternidade. Afinal, era incalculável a dose de otimismo e esperança que tomou conta do brasileiro.
Chefe Paulo literalmente não mediu esforços para que o diário cachoeirense se preparasse para circular com uma edição extra naquele 29 de junho de 1958. Era o mesmo dia em que o jornal completava 29 anos e, em vez do tradicional churrasco comemorativo, redatores, gráficos e administrativos foram convocados para o trabalho.
O que se passou naquela tarde histórica para o diário conto na semana que vem.


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