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Histórias de Copa, quem não tem? (III)

Então, contava que a euforia tomou conta do brasileiro nos dias que antecederam a final da Copa do Mundo de 1958. Ter tascado um 5 a 2 na França teria sido a prova definitiva de que ninguém pararia a seleção canarinho, que chegava invicta à decisão. E registrei que meu pai, o Chefe Paulo, convenceu-se também que o Brasil chegaria lá e o feito precisava ser eternizado. No caso, com uma edição extra impecável de seu Jornal do Povo, o diário da família cachoeirense.

Aquele 29 de junho de 1958 era a mesma data em que o jornal completava 29 anos. O tradicional churrasco comemorativo, me recorda agora um dos cinco irmãos, foi ao meio-dia do sábado. No dia seguinte, passada a comemoração, redatores, gráficos e administrativos estavam mobilizados desde cedo para produzir a edição histórica.

O jogo foi disputado pela manhã, uma manhã fria de um inverno que se iniciara há uma semana. Em vez de uma tarde de futebol na televisão, os brasileiros viveram aquela decisão com os ouvidos colados ao rádio, a maioria dos aparelhos ainda movido a válvula. Mas já havia também os moderninhos, alimentados por pilhas, como o impecável Spica. Era menor que um tijolo e ao redor dele eu e meus irmãos nos reuníamos para acompanhar cada jornada esportiva.

Uma nova magistral atuação de Pelé ajudou a consolidar a vitória por mais um 5 a 2, desta vez contra os suecos donos da casa. O que aconteceu em Estocolmo a história encarregou-se de preservar. Já o que se passou naquela manhã invernosa em Cachoeira do Sul foi o Jornal do Povo que registrou para a posteridade.

A tarde se aproximava do fim quando a edição extra ficou pronta. No formato standard, aquele grandão, o jornal era impresso numa máquina plana, anos luz das modernas rotativas. E imprimia folha por folha, cujo encarte final ainda exigia intervenção manual. Do alto de meus nove anos, acompanhava tudo ao lado do pai e da mãe. Atrás do balcão, junto com os gráficos já liberados do trabalho de impressão, ajudávamos a vender os exemplares recém-saídos da oficina. Os leitores, quase todos homens, disputavam espaço para garantir seu exemplar. Valioso não pelo preço de capa, mas pelo conteúdo: eram verdadeiras pepitas de ouro as notícias da conquista que o rádio transmitira durante a manhã e que agora chegavam impressas, prontas para serem guardadas, relidas e exibidas aos amigos.

Cada exemplar trazia a glória recém-conquistada pelo Brasil. Lá estava estampada a manchete óbvia mas estridente: BRASIL CAMPEÃO DO MUNDO. O material editorial, enriquecido pelos telegramas informativos fornecidos por agências de notícias, detalhava a vitória e o título inédito. O sabor local estava nos registros feitos pela redação. Redatores que faziam também as vezes de repórteres captaram o que as agências jamais poderiam transmitir: o entusiasmo, a euforia incontida que tomou conta de Cachoeira do Sul.

Cinco décadas atrás, Cachoeira era um município mais pujante do que o de hoje. Com seus 94 mil habitantes, cerca de 12 mil a mais do que atualmente, vivia um período de vigor econômico que perderia ao longo dos anos. Aquele povo festejou a conquista como se participasse dela, todos compartilhando a mesma alegria. Como está lá na letra de forma do diário, “engalanou-se a Princesa do Jacuí”.

Era de pura festa o ambiente nas ruas centrais, tomadas por uma multidão que vivia, segundo um dos redatores, “momentos de indescritível vibração”. Vale a pena conferir sua descrição, preservada nas páginas daquela edição inesquecível: “Empolgado, o público foi às ruas, vibrando intensamente e revelando-se em todos os rostos a satisfação de que se haviam possuído”. E adiante, com mais riqueza de detalhes: “Todos, em geral, empolgavam-se com o grande feito do esporte pátrio. Um foguetório ensurdecedor dominou a cidade que, entre vivas e hurras, festejou o consagrador triunfo”.

As palavras soam grandiloquentes para os ouvidos de hoje, mas transmitem com presteza o clima daquela tarde-noite de inverno. O diligente redator, surfando nesta mesma toada, não deixou de expressar também seu orgulho escrevendo esta patriotada final: “E, nessa hora de intensa vibração, incorporamo-nos também à vibração do público, juntando o nosso VIVA O BRASIL”.

Por suposto, a edição extra também ganhou de goleada. Não há registros de qual teria sido a tiragem daquele dia, e dela sobreviveram apenas dois ou três exemplares na coleção do jornal. O povoeiro estava literalmente sequioso por um exemplar. Os jornaleiros andavam meia dúzia de quadras e logo voltavam de mãos abanando. A procura era muito maior do que a capacidade de distribuição.

A venda de jornais tornou-se uma demanda tão urgente naquele fim de tarde que até meu irmão Eládio foi convocado para a tarefa. Tinha apenas seis anos, acredite se quiser, quando saiu pela Rua 7 de Setembro, a principal da cidade, e onde também estava sediado o jornal, com um pequeno pacote de exemplares debaixo do braço. Décadas depois, recorda a aventura sem muita nitidez, mas registra que vender o jornal não exigia nenhum esforço. E não é difícil mesmo imaginar que, naquele domingo glorioso, oferecer uma edição extra anunciando o primeiro título mundial do Brasil era como expor pãozinho fresco em balcão de padaria.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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