Durante um período de minha vida, acredite, fui repórter, daqueles que gastavam sola de sapato perambulando por ruas, empresas, repartições públicas, atrás do fato que pudesse ser notícia no jornal do dia seguinte. O verbo vai aqui no passado, gastavam, porque nos dias que correm, salvo as exceções da regra, repórter senta em uma cadeira na redação, ou alguma em sua casa mesmo, e dali sai a falar com o mundo via computador ou celular. De qualquer forma, repórter, bem sabemos, pode transitar entre o céu e o inferno no mesmo dia, dependendo do humor dos entrevistados ou do ambiente que o recebe.
A história que quero contar está centrada na final da Copa do Mundo de 1970, um dia que já amanheceu épico para a nação. O Brasil inteiro ansiava por ser tricampeão de futebol, e todos os olhos e ouvidos estavam plugados nas tevês e nos rádios, ouvindo a transmissão do jogo decisivo contra a Itália. Todos os olhos e ouvidos, menos os de alguns desafortunados, entre os quais me incluía.
Pelas avenidas excepcionalmente desertas de Porto Alegre naquele 21 de junho sacolejava uma Kombi bege com este repórter e o fotógrafo Floriano Bortoluzzi a bordo. Corríamos para ouvir, mesmo antes de o jogo terminar, as opiniões das eminências de plantão, do governador Euclides Triches, encastelado no palácio da Rua Duque de Caxias, ao prefeito Thompson Flores em sua casa em Petrópolis. Foi nela que pude ver um gol da seleção Canarinho, o último de quatro, e registrei depois, nas páginas da Folha da Manhã, a explosão de alegria das dezenas de familiares e amigos que acompanhavam a trepidante decisão ao lado do alcaide porto-alegrense.
Repórter sofre, tá vendo? Condenado a trabalhar naquele dia, contentei-me em, muitos anos depois, na tevê a cabo, assistir, enfim, a final histórica. E com alegria renovada, pude saborear o passe perfeito de Pelé para Carlos Alberto ter a glória de fazer o último gol do título.
Uma semana antes da final de 70, este repórter estava lá em Santo Amaro do Sul, interior do Rio Grande do Sul, acompanhando as filmagens de Um Certo Capitão Rodrigo. Não teve gravação nenhuma na tarde do dia 17: o diretor Anselmo Duarte, os atores Francisco Di Franco, que fazia o Capitão, e Elza de Castro, a Bibiana, mais praticamente todo o elenco pararam tudo para acompanhar a passagem do rolo compressor contra o Peru, 4 a 2 para Pelé e cia.
Santo Amaro do Sul foi a cidade escolhida por Anselmo Duarte para rodar a maioria das cenas porque o casario da pequena cidade era ideal para a reconstituição de época. Bastou retirar os postes da iluminação pública e outros dois ou três retoques para que a pequena cidade do interior gaúcho se transformasse na Santa Fé do início do século 19, idealizada pelo escritor. E assim, metamorfosiada em Santa Fé, Santo Amaro viveu seu momento de Copa inesquecível, graças à audiência dos personagens estelares de Um Certo Capitão Rodrigo.


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