Fu Lana tem dias de filosofia. Não se enquadra, portanto, divaga. A grande massa da esquerda silenciosa, que segue sendo esquerda, já não coloca as bandeiras na rua, nem os plásticos no carro. Também não acredita em bonecos de esquina, pois métodos assim tão baixos são um desafio à ignorância. Os alternativos foram com muita sede ao pote e agora esperam a onda tomar forma para sentir de novo a vibração de deslizar triunfante. Queremos acreditar, mas não passar por ingênuos nem românticos em tempos racionais. A consciência da esquerda está ciente, mas observa. Espera sinais de esperança, de coesão, de gestos, de símbolos, de palavras de ordem. Palavras em que acreditava com convicção. As palavras são as mesmas. Já a convicção…
Hoje, dizem os filósofos, há um esboroamento da verdade e a emoção está anestesiada em um senso de preservação da espécie. Tal qual uma pausa para proteção à dor da decepção. Mesmo assim, a esquerda segue e insiste com seu voto paciente, contribuindo para que esse desmoronamento dê lugar a uma reconstrução. Uma reconstrução do humano.
Levar a bandeira nos braços significa concordar com tudo que este objeto simboliza e ainda pesa forte um sentimento de vergonha. Em nome da coerência, não se pode banderear por oportunismo (pode parecer conivência), nem por irresponsabilidade ou ingenuidade (pode parecer falta de conhecimento). São os brios remanescentes de um modo ético de ser que faz com que a esquerda siga silenciosa. É como se houvesse no ar um sentimento de condolências, em que se quer dizer aos familiares que ficam que a vida continua, que a dor vai passar e que todos voltaremos a acreditar nos seres humanos.
Por enquanto, estamos curtindo um momento Lupicínio: a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou. Mas enquanto houver força em meu peito, votaremos.
Já o espaço de um voto nulo é um não-espaço. Uma não-existência. Um voto nulo representa a desilusão, equivale a jogar a bandeira na rua, a jogar a toalha. Pode-se não acreditar mais em palavras de ordem, mas não se pode levantar a bandeira da submissão. O voto nulo equivale à desistência, ao suicídio.
Por fim, a confiança é como um papel bem lisinho. Quando a gente amassa, pode tentar passar a ferro, mas as marcas ficam sempre aparentes. Com o tempo e com as ações renovadas de tornar a passar, umedecer, secar ao sol, passar de novo, e a folha bem pode se tornar novinha de novo. Mas é preciso acreditar, e perseverar, o que equivale a acreditar em uma verdade estropiada, mas não adianta tentar escapar ou mudar de espaço. O homem pós-moderno vive de tempo. Tempo para curar a ferida ao natural. E em vida. Em nome de um sentimento solidário e em nome das futuras gerações. Fu Lana tem desses dias.
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