Mulher rendeira
Olê muié rendera
Olê muié rendá
Tu me ensina a fazê renda
Que eu te ensino a namorá
(Música de Zé do Norte do filme O Cangaceiro)
Semana passada, pagando tributo ao centenário de nascimento de Nelson Cavaquinho, levei muito mais tempo que o normal. Memórias esparsas tomavam conta da minha cabeça e interrompiam o fluxo do texto.
Nelson nasceu na Tijuca em 1911, o que me transferiu para Campinas, onde, cinco anos antes, nasceu meu pai.
Claro que não me lembro de Campinas daqueles tempos, onde também nasci, mas meu pai contava que o pessoal da elite não se cumprimentava na rua para não dar impressão de cidade pequena.
De mim mesmo, guardo alguns flashes: na sala de jantar, sentado numa poltrona, ao lado de uma janela por onde entravam raios de sol, meu avô Coelho deixou cair o jornal das mãos e os óculos do rosto. Eu tinha cinco anos e acabara de ser apresentado à morte. Com a mesma idade, enquanto minha mãe conversava com a diretora de um jardim da infância para me matricular, eu fugia por uma janela. Fui encontrado no porão de nossa casa.
Eu ainda não tinha seis anos quando aconteceu o primeiro choque cultural da minha vida, quando nossa família mudou-se para São Paulo, uma província muito maior que Campinas e capital do Estado.
O novo endereço não poderia ser mais central, Rua Conselheiro Crispiniano, 63, a 100 metros do Teatro Municipal e a 300 da Praça da República. A praça, um grande jardim arborizado passou a ser o meu playground.
Outro dia, atravessando aquela memória, vislumbrei a figueira centenária onde, sentado num banco, descansava dos folguedos e filosofava com o vai e vem das formigas.
Bem fronteira à figueira, do outro lado da Avenida Ipiranga, era a Japonesa, onde a gente se refrescava com o sanduíche de sorvete que nunca mais vi e do qual a minha querida amiga Cristina Zanini anunciou sua ressurreição:
Mario, querido, parabéns pela tua sensibilidade e pela beleza do texto! Aproveito para te informar que ainda existe sorvete / sanduíche, pelo menos em Porto Alegre. Tenho comido em uma galeteria na zona norte e se chama Panino. Na tua próxima vinda a Porto Alegre estás convidado a saborear alguns. Beijos.
Defronte à Praça, num enorme edifício centenário de três andares, hoje Secretaria de Educação do Estado, funcionava a Escola Caetano de Campos onde cursei o primário, ginásio e clássico.
Aquele espaço que abriga o edifício e a Praça, assim como o Novo Leblon, na Barra da Tijuca, são os territórios que mais registraram meus tempos de vida.
Felizes e inesquecíveis lembranças comprovam que cresci na mesma época na qual a cidade se despedia da província para dar início à sua vocação de grande metrópole.
Nos anos 1940 e 50, surgiram o TBC, o Teatro de Arena, o Maria Della Costa, Nicette Bruno, o Oficina, o Cultura Artística, outros teatros do município, grandes artistas, diretores e críticos de alta qualificação, a Escola de Arte Dramática e aconteceram muitas temporadas de grandes companhias estrangeiras.
Se esse movimento foi o meu “curso” de teatro, o Clube de Cinema e a Cinemateca foram minhas “escolas” da história do invento dos irmãos Lumière.
A exemplo do TBC, empresários viriam a se interessar por cinema e, em 1949, Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho à frente criaram a Cinematográfica Vera Cruz. Em seguida, São Paulo já somava cinco empresas produtoras de filmes. A inauguração de muitas salas de exibição superluxuosas atestava a prosperidade dominante.
O surgimento pioneiro da televisão em 1950, a Bienal Internacional de Arte em 1953, a fundação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (1948) e da Escola Superior de Propaganda (1951) ampliaram o mercado de trabalho nas áreas das artes, da comunicação e do entretenimento.
Aquela São Paulo, alavancada pelo dinheiro da agricultura e da indústria, vivia uma escalada de novos valores e não foi por acaso que o filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, produção da Vera Cruz, levantou em Cannes, em 1953, os prêmios de melhor filme de aventura e de melhor trilha sonora. O sucesso levou o filme a 80 países e, na França, ficou cinco anos em cartaz.
Não há acaso nessa história, O Cangaceiro foi apenas o marco de um momento.
Tenho certeza, como curioso das artes, amante dos livros e então futuro profissional de teatro, que cresci na cidade certa do Brasil daquela época.
Inté.
Vitrine (comentários sobre tributo a Nelson Cavaquinho)
Bela e justa homenagem! Rodrigo Menezes, São Paulo.
Escuta aqui, ô, vão pensar de novo que estou pagando para sair na Vitrine. Fazer o quê? Estou feliz de estar viva para poder ler uma coluna como a última, sobre o Nelson Cavaquinho. Relembranças em alto estilo linguístico. Ou redativo. Taí, inventei uma palavra. Beijos. Vera Verissimo, Porto Alegre.
A sobre Nelson foi demais para as minhas lembranças. Leitor assíduo de suas colunas transporto-me, sempre. Essa, particularmente, emocionou-me às lágrimas. Vi Nelson no Zicartola e no Opinião, frequentador com Wanda ou em outras vezes em companhias não tão boas, infelizmente. Na Siqueira Campos havia um botequim, perto do teatro em que ele baixava, depois das segundas de muito samba. O português baixava meia porta e deixava rolar. Eu me esgueirava e ficava embasbacado. Teresa Santos, que morava com Milton Coelho da Graça e Sônia Brandão, mangueirense e que promovia ações culturais na sede levou-me certa vez e fiquei de papo com o gênio! Li e fiquei ouvindo-o por horas. Obrigado por essa viagem. David Hulak, economista, Olinda, PE.

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