PORTO ALEGRE JÁ FOI UMA CIDADE POLITIZADA
As campanhas eleitorais em curso, tanto a para Presidência, quanto para o Governo do Estado, estão mostrando candidatos cada vez mais despreparados e distantes de uma discussão séria que o momento exige.
Os dois candidatos à Presidência da República, Lula e Flávio Bolsonaro parecem disputar o comando de um time de futebol onde até mesmo baixarias são admitidas e gastam seu tempo pondo em dúvida a honestidade do concorrente.
Mas nem sempre foi assim, principalmente no Rio Grande do Sul, os candidatos, independentemente de seus partidos e opção ideológica, discutiam idéias acima de tudo.
Getúlio Vargas, Luís Carlos Prestes, Júlio de Castilhos, Osvaldo Aranha e mais tarde João Goulart e Leonel Brizola, entre outros, sempre fizeram um debate de ideias e confrontaram propostas políticas.
Quando passei a participar mais diretamente da vida política, nos anos 50 e início dos 60 do século passado, Porto Alegre se destacava como um dos mais importantes centros político e cultural do Brasil.
As discussões eram estimuladas pelas ações, nas áreas cultural e política, acima de tudo pela Universidade Federal que trouxe para ciclos de debates os principais nomes do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, tais como Guerreiro Ramos, Ruy Mauro Marini, Roland Corbesier e Álvaro Vieira Pinto.
Fora da Universidade se discutia também muita política, filosofia e cultura no Clube de Cinema de Porto Alegre e nos pequenos jornais que surgiram como o Expressão de Flávio Tavares e mesmo nas conversas de bares e da Rua da Praia, um verdadeiro centro de debates informais no Largo dos Medeiros.
Foi nesse clima de efervescência cultural, que só terminaria com o golpe militar de 64, que pude conhecer parte da obra do grande historiador brasileiro Jacob Gorender.
Convidado pela Federação dos Estudantes da Universidade Federal Gorender deu em Porto Alegre uma série de palestras sobre o tema O Humanismo Marxista, derrubando uma tese que os conservadores e a Igreja Católica patrocinavam, de que ele seria um produto exótico, que servia apenas para os russos asiáticos, em desacordo com a cultura ocidental em que pretendíamos viver.
Gorender mostrou que o marxismo tinha suas origens em três pontos fundamentais da cultura ocidental: o socialismo utópico francês, a filosofia clássica alemã e a doutrina econômica inglesa.
Além de Gorender, outra figura do mundo intelectual, que influenciou diretamente minha geração foi o escritor português José Saramago, principalmente em seus dois Ensaios, o da Cegueira e o da Lucidez.
Ao chamar seus livros de Ensaios, ele nos permitia duas leituras. Não eram romances nem contos, mas ensaios literários e também no sentido de serem preparativos para uma disputa genuína.
Na Cegueira, apenas uma mulher conseguia enxergar o que ocorria na cidade e guiava as pessoas e na Lucidez, os eleitores numa determinada eleição se recusavam a participar desse processo porque os dois candidatos representavam a mesma ideia.
Aquele mundo de debates e rico culturalmente da Porto Alegre do passado se foi, mas os ensinamentos de Gorender e de Saramago estão vivos.
É preciso continuar lutando pela Revolução Brasileira guiados pelos poucos que enxergam o futuro e criar uma vanguarda revolucionária recusando nossos votos em candidatos que se igualam na falta de propostas de mudanças radicais na vida do País e do Estado.


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