Ao entardecer do dia 29 de junho, no abençoado Ano do Jubileu de 1500, um relâmpago iluminou os céus de Roma, desabou sobre o Vaticano, fazendo ruir o teto do salão onde cardeais e dignatários assistiam o espanhol Rodrigo de Lanzol-Borja y Borgia sentar no trono de São Pedro e tornar-se o 241º papa da História da Igreja.
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Nos 500 anos que se seguiram, o nome Borgia tornou-se sinônimo de envenenamentos, incestos, intrigas e lutas pelo poder. E durante este tempo, dezenas de escritores, historiadores, ficcionistas e roteiristas de cinema pesquisaram, escreveram e encenaram cenas da vida, ascensão e morte de Rodrigo Bórgia. Nem Alexandre Dumas, o fértil novelista do século XIX, resistiu em tecer uma romanesca versão daquele que foi o mais temível pontífice da Renascença – o papa Alexandre VI. E seus filhos mais famosos, Cesare e Lucrezia ia não ficaram atrás – com suas tumultuadas vidas, proveram generoso material para lendas e reconstituições históricas. Começando com Nicòlo Machiavelli, que se inspirou em Cesare e em suas façanhas políticas, para escrever o clássico Il Principe. E até hoje, os Bórgias continuam uma fonte inesgotável para séries de televisão e novelas de todos os matizes. Nem sempre com o talento do escritor Mario Puzzo, que traçou um paralelo da notória famiglia Borgia com a moderna mafia siciliana e que resultou na mais louvada trilogia do cinema moderno – The Godfather.
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Mais recentemente, Sangue e Beleza, de Sarah Dunant, entrou para a lista dos mais vendidos no The New York Times. No livro, ela pretende responder a fantasias transformadas em fatos históricos, graças à imaginação de escritores e roteiristas:
“Eram os Borgias tão sanguinários e impiedosos como se diz?”.
“Lucrezia Borgia deitava-se com o pai e com o irmão?”
“O veneno era uma ferramenta dos Borgias para eliminar inimigos e rivais políticos?”
Sarah Dunant fornece respostas negativas às duas últimas perguntas, mas hesita em negar a primeira, registrando que é inegável que os Borgias usaram de todos os meios ao seu alcance para manter e aumentar suas fortunas. O que confirma a tendência moderna em rever e favorecer biografias, como Hilary Mantel, em Bring Up the Bodies, que retrata com côres suaves Thomas Cromwell, o vilão da côrte de Henrique VIII. Justificativas? Em tempos brutais, os soberanos somente conseguem sobreviver à custa de assassinatos, torturas e exílios. Confirmando, de certa maneira, o receituário de um célebre florentino sobre o que um príncipe deve fazer para manter-se no Poder.
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Mas não é difícil absolver os excessos das séries de cinema, TV e novelas, se relembrarmos os temperados ingredientes que compõem o mosaico da vida de Alexandre VI. Como quando ele descreve sua amante Giulia Farnese:
“Sua pele é como o leite, os cabelos dourados, como mel e com estas feições de adolescente, poderia ser minha neta”.
Mas, para o cinema, a estrêla maior da constelação Borgia foi Lucrezia, que tinha prazer em exercitar o poder e praticar a intriga palaciana. Mas ela tem pesadelos sobre o irmão mais velho Giovanni (Juan), que foi encontrado boiando no Tibre, com 30 ducados de ouro em uma sacola. Ainda adolescente e noiva duas vezes, aceita um casamento de conveniência para atender os designios da família.
O irmão Cesare a conforta:
“Quem aspira o poder será sempre vulnerável. Não importa que seu marido seja poderoso, serás sempre uma Borgia, a quem todos temem, e, em segundo lugar, a esposa de alguém”.
Ele parece estar consciente dos perigos e glórias que o poder acarreta.
Ao observar o mestre de cerimônias Johannes Burchard medir o dedo de Rodrigo para o Anel do Pescador, Cesare prevê:
“Reis, cardeais e duques logo estarão beijando este anel,
esperando graças e favores. Um cortejo de homens
mesquinhos, aspirando o perfume do incenso, para esquecerem
o cheiro de enxofre de sua danação eterna”.
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O império Borgia começa a ruir “de dentro para fora” como afirmam os historiadores. Mas até o final, a soberba e a ânsia de domínio prevalecem. Contam as lendas que, ao exalar seu último suspiro, Alexandre VI teria dito:
“Va bene, va bene, arrivo. Aspettate un momento”.
Os cardeais, bispos e dignatários, inimigos e desafetos, que rodeavam seu leito de morte, maldosamente interpretam as palavras como um apelo ao Diabo, para que aguardasse mais um momento, antes de tomar conta de sua alma imortal.
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