Há um mês, escrevi aqui neste portal, a coluna intitulada Outone-se, em que incentivei e estimulei meus leitores e leitoras a aproveitaram ao máximo a nova estação, que havia desembarcado no Hemisfério Sul uns dias antes. O texto convidava quem me acompanhava a enxergar a beleza do outono nas pequenas e singelas ocorrências dos dias e das noites e desprezar a certa melancolia típica do período. E insistia para que as pessoas usassem as qualidades do outono. Não foi possível. O inverno, com seu frio tenebroso, que deveria começar somente no dia 21 de junho, decidiu assustar os habitantes da Região Sul antes da sua estreia no calendário oficial.
Nos últimos dois dias no Rio Grande do Sul, o inverno, considerada a estação mais fria do ano, coloriu as ruas das principais cidades e os campos das áreas rurais com os agasalhos, as mantas, as toucas, os blusões de lãs e as botas para calçar os pés e evitar o congelamento dos membros inferiores de quem ousou sair às ruas. Todos e todas remexeram nos armários para pegar roupas que protegessem deste frio inesperado e fora da hora. E as primeiras crises de asma, bronquite e outras ites (sinusites, rinites e faringites) já assombram e lotam as emergências de hospitais e postos de saúde.
Portanto, mesmo que tenha chegado de forma antecipada, prepare-se para a estação mais fria do ano. Período em que as árvores perdem, definitivamente as folhas, que começaram a despencar no outono. Que algumas espécies de animais hibernam porque seu metabolismo fica reduzido e é preciso manter a energia, comportamento que chega a ser repetido pelos humanos. Ocasião em que as pessoas consomem produtos mais energéticos e calóricos para suprir as necessidades de aquecimento do corpo e abusam dos pratos quentes como as sopas e os líquidos como os chás e os chocolates. Sem falar na delicia de um bom vinho saboreado gole a gole ao som de uma boa música ou uma leitura.
Ainda que seja de maneira tímida e possa não manter-se nesta intensidade antes da data oficial de sua chegada, permita-se explorar as delícias deste inverno intrometido. Não se encolha. Não se recolha. Não se esconda. Não se apague. Não se interne dentro de casa ou apartamento. Não se deprima. Separe as roupas quentes do roupeiro. Aproveite e veja o que não será mais usado e doe para aqueles que não dispõem de agasalhos. Envie os acolchoados para a lavanderia. Renove a adega com bons vinhos. Deixe a despensa repleta de alimentos energéticos e o freezer com opções para as comidas que esquentam as noites dos corações solitários;
Inverne-se. Prepare-se para os dias e as noites frias e as suas possibilidades de trocas, encontros e encantos. Vista-se com as lãs, as pashminas, as echarpes e os lenços que tornam qualquer roupa mais simples um traje fashion. Desfile com os mais vistosos bonés, os chapéus, as luvas e os detalhes que perfumam as noites frias. Compre alguns títulos novos na livraria para estender as noites. Faça uma lista de filmes que podem ser vistos nas tardes inúteis de domingos, seja no cinema com amigos ou no aconchego do lar, bebericando xícaras de chá ou chocolate quentes. Convide amigas e amigos de fé para um café no entardecer. Não deixe que o cinza do inverno afugente as cores de sua vida.
E se você é daqueles e daquelas que passaram o verão inteiro reclamando do calor intenso e amaldiçoando a temperatura elevada em Porto Alegre, agora não me venha, por favor, protestar contra o frio. Tenha um mínimo de coerência e não seja um eterno ou uma eterna insatisfeita. Inverne-se.

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