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Isolada. Confinada. Sem afetos e carinhos até o final do ano

Ninguém merece mesmo. Nem que a pessoa tenha cometido todos os pecados do mundo e ainda ajudado a aperfeiçoar alguns pecados de familiares, amigos e vizinhos. Nesta quarta-feira, 16 de setembro, completo 185 dias trancada dentro do meu pequeno apartamento, no mais completo e rigoroso confinamento, sugerido pela OMS para reduzir a propagação do COVID-19, e o cenário que o futuro me acena não é nada, absolutamente nada animador. Tudo indica que, acreditando na sinalização mais otimista possível, até o final do ano, eu e todos os responsáveis teremos que ficar no isolamento total.

Como sempre pode piorar – já lembrava uma amiga da Prefeitura – arrisco dizer que chove esporadicamente em Porto Alegre nos últimos 10 dias. Para quem está trancada em casa, como eu, as chuvas trazem uma série de problemas. Falta de luz, mesmo para quem reside em bairro central; queda do sinal da operadora da banda larga (nem gosto de falar porque já se vão uns 20 dias com tudo funcionando) e dificuldade de permanecer horas a fio na janela vendo o tempo passar enquanto intercala capítulos do livro. E a chuva impede as caminhadas em horários de menos movimento como o médico liberou.

Vocês podem estar pensando – e com toda a razão – mas porque ela reclama tanto se pelo menos tem um lugar que lhe serve de abrigo, tem agasalhos, tem alimentos e dispõe de entretenimento, como leitura, televisão aberta e ainda canais de filmes por assinatura. Concordo que a situação dos moradores de rua (e cada dia aparecem mais e mais na capital gaúcha) é bem desesperadora nestes dias chuvosos e me solidarizo com eles. Se pudesse, eu resolveria imediatamente a vida destes moradores. Mas não tenho capacidade financeira para tal e nem posso burlar o confinamento para levar agasalhos e comidas.

Ao confessar meu pequeno egoísmo em pensar somente na minha vida e nos irrisórios problemas, mas admitindo reconhecer a existência de encrencas bem piores que as minhas, sigo na minha ladainha de lamentações. E elas crescem nos finais de semana, quando vejo milhares e milhares de pessoas circulam nos parques, praças, shoppings e loja de Porto Alegre, ignorando que a pandemia do Coronavírus não está isolada. E vejo esta movimentação ao ler os jornais e acompanhar as postagens nas redes sociais. Porque eu continuo no isolamento – em dias de semana, finais de semana ou feriado. Chova ou faça sol.

Eu persisto no confinamento. Eu insisto no isolamento. Eu ainda acredito, ao acompanhar muitas notícias desde que acordo, em mais de um meio de comunicação social. que evitar qualquer tipo de aproximação, é a melhor maneira de reduzir a propagação do Covid-19. Evidente que não sou irracional e entendo que alguns precisam sair às ruas para trabalhar porque necessitam. Mas, exceto não confinar para trabalhar, compras no supermercado (se é do grupo de risco que alguém faça no seu lugar), exames de saúde, urgências e consultas médicas e estoque na farmácia, o resto tudo é supérfluo, é falta de empatia e de respeito com o coletivo.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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